Carta de Manoel Antonio a Ramón Vilar Ponte e, por extensom, à Irmandade Nazonalista Galega

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Carta de Manoel Antonio a Ramón Vilar Ponte e, por extensom, à Irmandade Nazonalista Galega

Mensagem  Nambuangongo em Qua Jan 12, 2011 11:43 pm



Estimados irmaos: recebim com a meirande ledice a vossa comunicaçom.

Algum tempo, estando eu fora de Rianxo, à Delegaçom da ING encarregou-se-lhe, sem ter em conta a minha observaçom oposta, a um sócio que agora, bem longe por sorte de nós, bota os fôlegos pola Uniom Patriótica*. Fora disso, a delegaçom em Rianxo constituimo-la um fato mui reducido de amigos, ainda que o único legalmente filiado era eu. E assi estamos. Nom sei se a isto se lhe pode chamar Delegaçom, mas endemal, nom coido que as demais estejam muito mais florescentes, agás a de Viveiro, polo que vejo. O feito é que aqui há um nacionalista pronto a todo, e um pequeno fato de rapazes de boa vontade dispostos a secundar em muito.

Que cumpre fazer atendendo às circunstáncias, perguntava também a vossa carta. Eu coido que o primeiro que cumpre fazer, é fazer algo ainda que seja um disparate; que por grande que este seja nunca será maior que o de estar sem fazer nada, como até agora.

Perdeu-se já quiçá a melhor oportunidade (a oportunidade tem um valor fundamental) esquivando a actualidade e o relevo que o Directório deu à questom nacionalista nos começos da sua actuaçom. Aquel foi o intre mais ajeitado para pôr na rua umha resposta estridente às suas provocaçons, ainda que vinhesse a dar no sacrifício. Daquela podia-se contar com a ajuda, ou polo menos com a simpatia, dumha mao de gente que, sem admitir a integridade do nosso ideário, mirou com desgosto a persecuçom das falas nom oficiais e outras medidas de carácter antinacionalista. Ademais, um gesto ergueito trazeria-nos o respeito de todo o mundo; mentres que aquele silêncio, tam suspeito de covardia, nom deixou de rebaixar em muito o prestígio de integridade e varilidade que os nacionalistas galegos tivérom sempre. Mas agora já vai alô.

Agora, se se quer fazer algo que convenha o afincamento e espalhamento do ideal nacionalista, temos nós que tomar a iniciativa, tem que sair de nós a provocaçom. Isto pode ser mais heróico, mas desde logo, de resultados práticos muito mais inferiores, sobretodo quanto ao proselitismo. Porém, a riola sem termo de insensatezes, provocativas chularias e outras cousas dos directoriais sempre darám pé para encarar com eles dum jeito inicialmente defensivo, cousa conveniente diante da grea. Isto no caso de querer dar umha estridência com os melhores resultados positivos, que coido nom se devera demorar.

Umha exposiçom concreta da conduta a seguir, é o que eu nom poderia fazer, nem tampouco seria oportuno, tendo em conta que no vosso inquérito juntarám-se opinions de importáncia e trascendência que a minha está mui longe de ter.

Muitos escolheriam melhor o trabalho na sombra e sem ter porque enfrentar com a soldadesca, mas eu nom o admitiria exclusivamente: se isso está bem, também cumpre indispensavelmente trazer o nacionalismo à rua e ao sol. Tanto como o labor calado, repousado e matinante, cumpre a estridência que dea a saber que nom estamos mortos a essas gentes que catam os livros polo forro e todas as cousas do mesmo jeito. Ademais cumpre a guerra para nos enfortecer nela, que é a 'única higiene do mundo', por palavras de Marinetti: 'O que nom nos mata, fai-nos mais fortes', dixo Nietzsche.

Pudera-se fazer, com folhas e folhetos, umha propaganda clandestina semelhante à que fam alguns elementos republicanos espanhóis. Resulta algo custosa pola circulaçom postal em sobres fechados, mas é de bons resultados porque caindo fora da censura pode-se dizer toda a verdade; por outra banda, a circunstáncia dos ánimos universalmente descontentes e excitados dá um intre ajeitado às propagandas extremistas. O único inconveniente é o dos cartos, que se poderia remediar em parte: já que a nossa organizaçom nom é perfeita, encarregando-se voluntariamente, os nacionalistas que pudessem fazê-lo, cada um do seu sector e circunscriçom, o mais pequenos que fosse possível.

De qualquer jeito que seja, cumpre assinalar umha norma que farám os nacionalistas o dia em que umha revolta desconcertada, caótica e sanguenta suceda o Directório, única soluçom que se adivinha.

Um ponto essencial da propaganda é o que se refire aos desgraçados agrários, que estám dando o mais magoante dos espectáculos na nossa Terra, pola infámia canalhesca dos seus condutores.

Pouco tempo antes de se dar a revolta russa, nom coido que houvesse muitos arredistas na Ucránia, na Estónia, na Letónia, etc. e sem embargo, hoje som nacionalidades independentes; o mesmo em Hungria e Bohémia. Cumpre portanto nom perder de vista a possibilidade de que umha revolta em Hespanha traia, sem pensá-lo, a independência das nacionalidades peninsulares mais aginha do que nós coidarmos.

Eu coido que no inquérito que estades a fazer darám a sua voz e conselho os persoeiros do nacionalismo, com as suas soluçons bem pensadas e ajeitadas; e nesta confiança, eu e os meus amigos ficamos acarom de todo o que queira trabalhar pola salvaçom da Nossa Terra.

Da Terra e vosso, com umha estreita aperta.

Manoel Antonio.

Asados-Rianxo-22-Outono-1924.



* partido da Ditadura primorriverista.




Tirado de García Sabell, D.(ed.): Manoel-Antonio. III. Correspondencia., Galaxia, Vigo, 1979, p. 237-240.
Adaptaçom ortográfica de galizalivre.org.

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Re: Carta de Manoel Antonio a Ramón Vilar Ponte e, por extensom, à Irmandade Nazonalista Galega

Mensagem  Isabel em Qui Jan 13, 2011 2:40 am

Apesar da adaptação deu-me um arrepio só de ver a situação desesperada em que se achavam...


«a delegaçom em Rianxo constituimo-la um fato mui reducido de amigos, ainda que o único legalmente filiado era eu.»

Engraçado, por que me soa tanto? O fato reduzido está hoje integrado por trinta colegas.


«Eu coido que o primeiro que cumpre fazer, é fazer algo ainda que seja um disparate; que por grande que este seja nunca será maior que o de estar sem fazer nada, como até agora.»

ha ha! Mas, que homem simpático!


«(a oportunidade tem um valor fundamental)»

As maiores verdades disseram-se entre parênteses, verdade? Uma vez perdida a oportunidade... não há mais remédio que criar outra ou fazer um disparate.


«Cumpre portanto nom perder de vista a possibilidade de que umha revolta em Hespanha traia, sem pensá-lo, a independência das nacionalidades peninsulares mais aginha do que nós coidarmos.»

Ai, identifica península com Hespanha/Espanha, esquecendo que Portugal já era independente e também peninsular... Até Manoel António. Mesmo ele não soube ver tudo o que havia.

Está claro que este é um processo que precisou da sua lentura... Tudo para os galegos tem um significado térreo, holístico, natural. A veiga que está a ser contaminada sofre, como sofriam eles sob a desgraça do nacionalismo espanhol crescente. Mas hoje é quase um século depois.

Há que ver o que há, o processo de lentura está concluindo, o terreno está pronto para abonar e temos todos de ter as mãos prontas para a sementeira. Fora da Galiza, o semeado já dá frutos.

O bom lavrador tem presente a veiga toda, não só a parte que ele ajudou a colheitar.
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Re: Carta de Manoel Antonio a Ramón Vilar Ponte e, por extensom, à Irmandade Nazonalista Galega

Mensagem  cdurão em Qui Jan 13, 2011 2:51 am

Pois é, "'O que nom nos mata, fai-nos mais fortes', dixo Nietzsche", depois de lhe escuitar a velhotes galegos "o que não mata engorda"...

(cuida[i] essa saudinha, que isto vai a sério!)

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Re: Carta de Manoel Antonio a Ramón Vilar Ponte e, por extensom, à Irmandade Nazonalista Galega

Mensagem  Isabel em Qui Jan 13, 2011 3:05 am

Isso a quem lho dizes, Carlos?
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Re: Carta de Manoel Antonio a Ramón Vilar Ponte e, por extensom, à Irmandade Nazonalista Galega

Mensagem  cdurão em Qui Jan 13, 2011 3:08 am

A toda/os nós: é um trabalho que consumirá as nossas vidas, todas, que deu e dá e dará fruto, sucessom êxito; obrigado a/os que trabalham no dia a dia, seja no que for, "glamourous" ou não; está nas nossas mãos, não é retórica; por isso digo que o que mais nos faz falta é a saúde para lhe pôr o ramo.

Obrigado, Isabel!

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Re: Carta de Manoel Antonio a Ramón Vilar Ponte e, por extensom, à Irmandade Nazonalista Galega

Mensagem  cdurão em Qui Jan 13, 2011 3:10 am

sucessom êxito=sucesso, êxito
"glamourous"="glamorous"

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Re: Carta de Manoel Antonio a Ramón Vilar Ponte e, por extensom, à Irmandade Nazonalista Galega

Mensagem  Isabel em Qui Jan 13, 2011 6:52 am

Quem tem de cuidar a sua saúde são aqueles que a vão perder por andar a fazer o maior disparate: não fazer nada. Nós somos cada vez mais fortes. Cuidemo-nos, sim, mas sobretudo, que se cuidem os inoperantes! Twisted Evil

E venha, como diria Manoel António, as mãos na massa, um pouco de samba e a trabalhar. bounce

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Re: Carta de Manoel Antonio a Ramón Vilar Ponte e, por extensom, à Irmandade Nazonalista Galega

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