Entrevista de Rui Martins a Camilo Nogueira em nome do MIL (16 fevereiro 2010)

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Entrevista de Rui Martins a Camilo Nogueira em nome do MIL (16 fevereiro 2010)

Mensagem  Nambuangongo em Qua Jan 12, 2011 11:23 pm



1. Qual é o estado atual das relações Portugal / Galiza?

A entrada conjunta na União Europeia estabeleceu uma nova relação entre os dous paises. Hoje Galiza é a primeira das Comunidades Autónomas do Estado espanhol na importação desde Portugal, mais que Catalunha e Madrid, e também a primeira exportadora se se incluir a origem real da exportação de energia eléctrica.

As visitas pessoais mútuas sempre foram mui importantes e agora mais. Muitos galegos e galegas conhecem Portugal como um país de seu: não só Porto, Coimbra, Lisboa ou Faro, senão também Castro Leboreiro, Mirandela, Freixo de Espada a Cinta, o nascimento do Zézere e Manteiga, Abrantes, Marvão, Galegos, Vila Viçosa, Beja, Ourique, Sines, Albufeira ou Sagres.

As relações políticas e instituçionais permanentes limitam-se as existentes entre a Região Norte e o Governo Galego e entre as cidades do Arco Atlántico de ambos lados do Minho e a Raia Seca ou às que mantenhem algúns partidos políticos e sindicatos. En tanto não são raras as visitas do Presidente do Governo Galego ao Presidente de Portugal ou ao Primeiro Ministro. Eu mesmo, sendo deputado no Parlamento Europeu encabecei uma delegação do BNG que visitou ao Presidente e aos Grupos políticos da Assembleia da República e tambén ao ex Presidente Mario Soares, com quem, como com os demais deputados e deputadas de Portugal, tive uma relação amistosa no Parlamento Europeu. Em Lisboa não diferenciam as relações como Galiza das que mantenhem como o resto do Estado espanhol e os governantes galegos tampouco as de Galiza com Portugal.

Existem interessantes relações universitárias. Também teatrais e musicais. Igualmente, ainda que paradoxalmente minoritárias, as de carácter lingüístico. E especialmente de profissionais da saúde e operarios de sectores económicos como a construção.

Algumas salientes empresas portuguesas estão na Galiza e em maior medida galegas em Portugal, particularmente na fronteira do Minho em relação com Vigo e também nas zonas de Porto e Lisboa.

A Televisão galega poder ver-se em parte de Portugal, mas não as portuguesas na Galiza, excepto os canais de pago. A incomunicação na imprensa é, de facto, total.

Ainda hoje, quando alguém se achega à fronteira desde Portugal não encontra nenhuma referência a que entra na Galiza, entanto que se proclama a entrada em Espanha, como se o Minho fosse o Guadiana em Ayamonte.

Porém, se ha poucos anos a única ponte estrada sobre o Minho era a de Tui e Valença, agora existem a correspondente à autoestrada entre essas duas cidades, e as pontes entre Goian e Vilanova de Cerveira, entre Salvaterra de Minho e Mónaco e entre Arbo e Melgaço, estando prevista alguma mais. A não tardar haberá tantas como em Paris.

As relações estão entorpecidas pelos prejuizos derivados dos conflitos hispano-portugueses. Fica muito por fazer para estarmos de mans dadas.

2. Qual é a sua opinião sobre a política externa do Governo Português para com a Galiza?


Esta condicionada pelas relações estatais entre Portugal e Espanha, pela justa desconfiança portuguesa e pela vontade de domínio do poder espanhol e, também, porque a realidade histórica e cultural de Galiza pôe em causa as ideologias historiográficas dominantes nos dous Estados. Mas isto requeria uma conversa muito mais extensa.

3. Que tipo de contactos culturais existem hoje entre Portugal e a Galiza?


Não os contactos necessários e possíveis, malia que algúns dos existentes são prometedores. Algo fica dito na primeira pergunta.

4. Como descreveria em breves palavras o termo “reintegracionismo”?

Acho que deveria significar a convergência da norma ortográfica que hoje é oficial de Galiza com a galega histórica e pelo tanto com a portuguesa, mantendo o galego as diferenças morfológicas ou fonéticas, como ocorre no portugués de Brasil e noutros paises e como sucede sem problemas em todas as línguas de carácter intercontinental. Como estou a fazer aquí, na imprensa galega escrevo com frequência em galego com a norma ortográfica portuguesa. De ter escrito aquí com a norma oficial galega a estrutura morfológica e sintáctica utilizada seria a mesma. Em tudo o caso, o reintegracionismo não pode significar -seria contrário à consciência de Galiza como povo e como nação, ademais de inecessário e impossível- que a norma fonética e morfológica de Lisboa se imponha em Galiza como se tem feito no Norte de Portugal.

Devo salientar que como deputado no Parlamento Europeu falei em galego com grande frequência nos Plenários, aproveitando a oficialidade do português e constando nos diários de sessões na norma ortográfica portuguesa, sendo traducido sem problemas a todas as lenguas oficiais, entre elas o castellano. Em Madrid estaria-me totalamente prohibido. Actuei como os flamencos de Bélgica e os holandeses, que têm as suas línguas como a mesma.

5. Como descreveria em breves palavras o termo “isolacionismo”?

Como o propósito de estabelecer uma norma diferenciadora da língua galega a respeito da portuguesa. Essa norma, pretendendo aproximar-se ao galego falado, está tendo um perigoso desvio que a arreda da rica língua popular, de modo especial na fonética, e a aproxima á castelá. Essa norma tende a ciscunscrever a língua galega no âmbito de comunicação do Estado espanhol, dificultando o aproveitamento da fortuna de ser partilhada a través do português por Portugal, Brasil e os demáis paises da mesma língua.

Ainda assím, é preciso dizer que os lingüistas que estabeleceram a norma oficial recuperaram a rica lingua histórica e popular, fazendo uma aportação fundamental ao galego-português, que deve ser muito valorada também fora de Galiza. De facto, desde o ponto de vista estritamente lingüístico hoje não resulta difícil passar da actual norma ortográfica oficial galega à norma portuguesa.

Acho, pois, que não responde à realidade dizer que o galego se arredou do português precisamente no momento em que foi radicalmente proibido na administração e no culto religioso, no princípio do século XVI. O galego mantívo-se apesar de tudo como língua falada, pelo povo, evoluindo básicamente como o portugués e desde logo como o portugués falado tanto em Portugal como em Brasil ou em África. As pessoas que falam entre eles correctamente e sem prejuizos, uns em galego e outros em português, comprovam que não têm, tudo o contrário, nenhum problema de compreensão. A mesma toponimia, de Viseu a Cádavo e de Pereiró a Torres Vedras (em Galiza Pontevedra ou Vedra: topónimos que lembram a uma forma galego-portuguesa de “velha”). Não ha mais que caminhar por Galiza e Portugal para enxergar a total identidade dos topónimos. Na Galiza, como suponho no Norte de Portugal, cada palmo de terra tem un nome próprio.

6. Qual considera ser a importância da sobrevivência da língua galega para a manutenção de uma “identidade galega”?

Evidentemente o galego é fundamental na história -se existe o galego é porque existiu durante séculos o Reino independente de Galiza-, e na consciência presente da identidade galega.

Hoje o galego é falado pela imensa maioria da povoação de Galiza, sendo as pessoas habitualmente monolingües em galego muitíssimas mais que as monolingües em castellano, por muito que todos saibam as dúas línguas Como tal língua não está em perigo de desaparição. Muito menos se se pensa que resulta impossível tal sucesso entanto que se fale como portugués no mundo.

Agora bem, durante os cinco séculos de proibição pública por parte da monarquia e o Estado espanhol o galego resistíu na fala da prática totalidade da gente e como língua das viçosas culturas agrária, marinheira e do artesanato. Tendo padecido a experiência da dominação pelos filipes Habsburgo entre 1580 e 1640, os portugueses sabem o difícil que resulta uma resistência como a galega. Porém no mundo urbano e industrial de hoje toda língua necessita de um Estado, ou de uma instituição de tipo estatal, que a tenha inequívocamente como língua própria e nacional. A existência do Estatuto de Autonomia de Galiza melhorou muito a situação pública do galego, mas estamos longe de normalizar o seu uso como tal língua própria nacional. A dia de hoje estamos perante un decisivo problema político, enfrentados a un Estado que toma o castellano como signo de identidade, querendo mesmo ignorar teimosamente que o galego, através do português é tão intercontinental como a língua castelá.

7. Qual o significado da estandartização do idioma galego?

Creio que servem respostas anteriores. Falta ainda a necessária convergencia com a norma ortográfica do português

8. Quais são -na sua opinião- os mais graves atentados à língua galega na atualidade?

A acção permanente dos poderes que impidem o seu uso como a língua própria e nacional de Galiza, começando pela difusão sistemática da ideia de que a sorte do galego deve depender simplesmente de cómo os pais a transmitam aos filhos, como se a nossa língua como todas, não fosse também uma língua institucional, política e social.

9. Qual o estado da definição de um modelo de língua culta?

Existe um modelo oficial específico do galego como língua, mas como venho de dizer é necessário avançar no caminho da convergencia, começando já pelo ensino da norma portuguesa nas próprias aulas de galego e abrindo a mão para dar apoio igual às publicações que escrevam em galego com a norma portuguesa. De facto já está a ocorrer que determinados autores escrevam assím em jornais de tirada em galego ou castellano

10. Que benefícios concretos obteriam os galegos e a cultura galega através da adesão da Galiza ao Acordo Ortográfico de 1990?

Creio que já contestei dizindo que a norma ortográfica galega deveria ser igual à portuguesa.

11. Qual acha que poderia ser o papel do MIL: Movimento Internacional Lusófono no aprofundamento das relações Portugal-Galiza?

Penso que o MIL, como os demais movimentos reintegracionistas, estão a fazer um grande trabalho. Acho que em Galiza o caminho a seguir é o de convencer à maioria da gente. Neste momento em Galiza todo o mundo aceita a ideia de que galegos, portugueses, brasileiros, angolanos…falamos a mesma língua ou que pertencemos ao mesmo sistema linguístico. Até ha muito pouco isto era apenas património de uma minoria.

12. Qual é a sua opinião no que diz respeito ao apoio à causa galega por parte de países lusófonos?

Deveriam, penso, reconhecer jà ao galego como a mesma língua que o portugués. Confiando em que em Galiza se tomem decisões convergentes ou reintegracionistas e sem pôr isto como condição imediata: para que as cousas madurarem, como está a suceder.

13. Como considera em que poderia consistir esse apoio?

Creio que serve a resposta anterior

14. Que utilidade teria para a Galiza e a sua língua a adoção de um modelo reintegracionista no que diz respeito à sua política linguística?

Seria enormemente positivo quando se acordar por convencimento como é devindo e necessário, mantendo a personalidade do galego, como ocorre ponhamos por caso com o brasileiro,.

15. Quais seriam os obstáculos para levar a cabo essa política?

Em Galiza temos que tomar a decisão de agir na questão da língua com total independência de Madrid. Com o Estatuto de Autonomia e a Lei de Normalização Linguístia aprovada polo Parlamento galego, Galiza tem hoje competencias que permitiriam avançar nesse caminho.

Desde Galiza é preciso abandonar a ideia de o galego ser uma língua do Estado espanhol e de o português constituir uma língua estrangeira. Desde Portugal estaria bem que se reconhecesse a paternidade partilhada do galego-português, normalizado como língua da cultura desde a irradiação de Compostela em Galiza e Portugal, e mesmo em Toledo e Sevilla, substituindo depois na administração ao latim no tempo de Dom Dinis, tanto em Portugal como na Galiza, sendo levada mais tarde pelos portugueses por todo o mundo, numa aventura histórica extraordinária.




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Re: Entrevista de Rui Martins a Camilo Nogueira em nome do MIL (16 fevereiro 2010)

Mensagem  cdurão em Qui Jan 13, 2011 12:54 am

Obrigado, Nambu, ótima e bem informada entrevista.

Rapidamente: “Existem interessantes relações universitárias [...] ainda que paradoxalmente minoritárias, as de carácter lingüístico”:

aqui discordo do amigo Camilo: nada de paradoxal, reflite a construção dos respetivos Estados, mutuamente interessados em soterrar o que para eles é uma verdade incómoda, que neste foro não preciso espraiar: só dizer que ela aflorará, “caiga quien caiga” (“a realidade histórica e cultural de Galiza pôe em causa as ideologias historiográficas dominantes nos dous Estados”, diz ele mais abaixo);

“as pontes entre [...] Salvaterra de Minho e Mónaco”: só comentar, para não morrer a rir, que existe um ótimo corretor (http://www.flip.pt/FLiPOnline/Vocabul) no que não falta “Monção”.

Mais: ““reintegracionismo” [...] deveria significar a convergência da norma ortográfica que hoje é oficial de Galiza com a galega histórica e pelo tanto com a portuguesa, mantendo o galego as diferenças morfológicas ou fonéticas, como ocorre no portugués de Brasil e noutros paises”:

desculpe-me o meu amigo: ele sabe que essa tal “norma” não é “oficial”: é a escrita dos organismos oficiais do EE na Galiza, que não é o mesmo, e que eles querem impor a toda a comunidade, com o alvo que todos sabemos, e o Camilo mais que muitos, pois tem escrito sobejamente sobre o tema;

“o reintegracionismo não pode significar -seria contrário à consciência de Galiza como povo e como nação, ademais de inecessário e impossível- que a norma fonética e morfológica de Lisboa se imponha em Galiza como se tem feito no Norte de Portugal”: o Camilo sabe bem que toda/os estamos de acordo nisso, mas sempre acha a maneira de dizer alguma cousinha assim nas suas entrevistas: para que? para acentuar as diferenças? para lhe tornar mais fácil a destruição da Galiza aos frijoletes de sempre? sentidinho, Camilo! então aquilo que falavas “nos Plenários, aproveitando a oficialidade do português e constando nos diários de sessões na norma ortográfica portuguesa”, que raio era? tomaram os catalães terem uma oportunidade assim para estear a sua língua!

“Actuei como os flamencos de Bélgica e os holandeses, que têm as suas línguas como a mesma”: então?

“Hoje o galego é falado pela imensa maioria da povoação de Galiza [...] Como tal língua não está em perigo de desaparição”: de verdade pensas assim, Camilo, com o coração na mão? a mim chamam-me otimista, mas não chego a tanto, meu filho.

“Falta ainda a necessária convergencia com a norma ortográfica do português”: Camilo: que estiveste na inauguração da AGLP: como poetara o Celso Emílio: “que che falta?”

“Existe um modelo oficial específico do galego como língua”: e dá-lhe! na cabeça do frijolete? na do ILG e o seu defunto presidente? na doutro presidente não defunto mas de ideias defuntas? a ver!

“Galiza tem hoje competencias que permitiriam avançar nesse caminho” Come on!

Por último: por que não empregas o AO? (“a norma ortográfica galega deveria ser igual à portuguesa”)

Enfim, positiva entrevista, acima e abaixo da Raia, mas demasiado otimista (sorry!) nessas perspetivas da “imensa maioria da povoação”.

Carlos

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