“Só poesia”

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Re: “Só poesia”

Mensagem  cdurão em Sex Jan 28, 2011 12:40 am

Respiro o teu corpo


Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.

Eugénio de Andrade

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Re: “Só poesia”

Mensagem  cdurão em Sab Jan 29, 2011 6:39 am

A vida, a seguir...

... escondida, te encontrarei, perdida,
te guiarei, despida, te abraçarei,
revestir-te-ei, de vida,
e, sem vida, dar-te-ei,
a seguir, eternidade...

(C. H. Benengeli)

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"UM ESTRANHO PODER DE CURA"

Mensagem  cdurão em Dom Jan 30, 2011 11:00 am

http://estrolabio.blogs.sapo.pt/

"Meu filho deficiente mental, Hikari, foi despertado pela voz dos pássaros para a música de Bach e Mozart e acabou produzindo suas próprias obras. As pequenas peças que ele inicialmente compôs eram cheias de frescor e prazer. Pareciam gotas de orvalho brilhando sobre a relva. A palavra inocência é composta do prefixo "in", que significa "não", e de "nocere", "ferir". Ou seja, ela quer dizer "aquele que não fere". A música de Hikari era uma manifestação natural de sua própria inocência. Conforme ele passou a criar mais obras, no entanto, não pude deixar de ouvir nelas também a voz de uma alma escura e atormentada. Apesar de deficiente, seus esforços extenuantes permitiram que ele melhorasse suas técnicas de composição e aprofundasse suas concepções. E isso fez com que ele descobrisse no fundo de seu coração uma massa de tristeza que até então ele fora incapaz de expressar com palavras. O fato de expressá-la em música cura Hikari de sua tristeza, é um ato de recuperação. Mais ainda, seus ouvintes aceitaram essa música como algo que também os fortalece e restaura. Nesses fenômenos, eu encontro as razões para acreditar no estranho poder curativo da arte."

Trecho do discurso de aceitação do
Prêmio Nobel de Kenzaburo Oe"

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Re: “Só poesia”

Mensagem  Isabel em Dom Jan 30, 2011 1:21 pm

Do além

Eu também
acreditava
nos sonhos.

Até o dia em que
o maior deles
se suicidou.

Sofri um enterro
rápido
e sem flores.

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DIVINO ERRO

Mensagem  Joanlogo em Dom Jan 30, 2011 4:21 pm

Cansado de curtir o dia-a-dia
sem qualquer atração do Paraíso,
o Criador resolveu que era preciso
sair da fossa e da monotonia.

Com a argila celeste, de improviso,
compôs um alto estudo de estesia,
modelando a mulher, que lhe surgia
com a graça e a malícia de um sorriso.

Previu que ali forjava a sua fama
mas, com o molde ainda inacabado,
sentiu-se exausto e se jogou na cama.

Foi seu erro... o sono foi funesto.
Mefisto, apologista do pecado,
aproveitou a chance... e fez o resto.


Mario Rossi (1911/1981),

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ENGANOS

Mensagem  Isabel em Seg Jan 31, 2011 2:19 am


[...]
Dizeis que Eva pecou;
mas enganou-na a serpente,
criatura em quem falava
um anjo, que em-que rebelde,
era um anjo e teria
inteligência esplendente.
Mas Adão, que era varão,
também foi curioso e febre
e não teve pra tentá-lo
nada o demo que fazere.
[...]


Filomena Dato (1856 - 1926)
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CHANSON D’AUTOMNE

Mensagem  Joanlogo em Seg Jan 31, 2011 3:10 am

CHANSON D’AUTOMNE

Les sanglots longs
Des violons
    De l’automne
Blessent mon cœur
D’une langueur
    Monotone.

Tout suffocant
Et blême, quand
    Sonne l’heure,
Je me souviens
Des jours anciens
    Et je pleure ;

Et je m’en vais
Au vent mauvais
    Qui m’emporte
Deçà, delà,
Pareil à la
    Feuille morte.



Do livro POÈMES SATURNIENS (1866)


Paul Verlaine (Metz, 30 de Março de 1844 – Paris, 8 de Janeiro de 1896)




Retrato de Paul Verlaine pintado por Courbet



Tradução para português da Galiza de José André Lôpez Gonçâlez


CANÇÃO DO OUTONO

Os soluços longos
Dos violões
Do outono
Ferem meu coração
Com um langor
Monótono

Já sufocando
E branco, quando
Soa a hora,
Eu lembro
Dos dias passados
E choro.

E eu me vou
Para o vento mau
Que me transporta
Pra cá, pra lá,
Semelhante à
Folha morta.

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Re: “Só poesia”

Mensagem  Isabel em Seg Jan 31, 2011 4:48 am

A ausência

[...]
Nada no mundo há risonho
que dê trégua ao meu penar;
foram as ditas um sonho
e fugiram ao acordar.

Fugiram, mas não marchou
da alma o duro sofrer,
nem a paixão que enlutou
o um tempo feliz viver.

Voai, voai ilusões
que no delírio forjei,
quando em doces emoções
sonhos de amor arelei.

Voai... e ao bem que inda adoro
com ardente frenesi
dizei que em contínuo choro
passo os meus dias aqui.


Avelina Valladares (1825 - 1902)
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Vrull de Zef Serembe

Mensagem  Joanlogo em Seg Jan 31, 2011 8:17 am

VRULL

Zogj të bukur këndojnë me hare,
Po zëmra do më plasë mua në gji.
I helmuar e shkoj jetën te ky dhe:
Mërzitem në katund, në vetëmi.

Tërë shkëlqim m’hapet përpara deti,
Që zgjon te trutë e mi mendime shumë,
Zëmra m’u shqerr nga tmerri mua të shkretit,
Aq sa vetëm pushoj kur bje në gjumë.

Arbria matanë detit, na kujton
Se ne të huaj jemi te ky dhe!
Sa vjet shkuan! E zëmra nuk harron
Që ne turku na la pa Mëmëdhe...

Hakmarrja na jep shpresë e na ndriçon,
Por fryn era dhe akulli me zë,
Se ç'ka qenë Arbëreshi po harron:
Dhe s'i vjen turp aspak, po rri e fle.

Texto em língua albanesa do Sul da Itália




Zef Serembe , Strigari, província de Cosenza, a Calábria, 6 de março de 1844- São Paulo, 1901.

Poeta da diáspora albanesa. Os seus poemas foram recolhidos e editados polo seu sobrinho Kozmo Serembe no livro Vjershë (Milão, 1926).



Tradução para português da Galiza de José André Lôpez Gonçâlez


Ímpeto

Belos pássaros cantam com alegria,
  Mas o coração vai rachar comigo na baía.
  O veneno da vida irá também:
  Quanto tédio na aldeia...

  Todo o mar glorioso chama-me
Evocando os meus muitos pensamentos!
  E o coração fica de horror desolado
  Então, só descanso quando estou dormindo.

  Albánia do outro lado do mar, lembra-nos
  Que aqui somos estrangeiros!
  Tantos anos fui! O coração nunca esquece
  Desde que nos deixou sem pátria o turco ...

  A vingança nos dá a esperança e nos ilumina,
  contudo o vento sopra forte congelado,
  Que lhes passou aos Arbëreshi para ir esquecendo:
  Nada me envergonha, mas estou a cair com o sono.

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Re: “Só poesia”

Mensagem  Gascon em Seg Jan 31, 2011 1:18 pm

Fogaxe


Belidos paxáros cantam ledos
mas o coraçóm a me rachar na badia
e o veneno da vida tamém ...
abalhoar na aldeia, abalhoar

chama por mim o mar grorioso todo
e todo meu matinar evocando
e o coraçóm fica de horror esconsolado
entóm só em durmindo descanso

Albania da outra banda do mar, lembra-nos
que aqui somos estrangeiros!
Tantos anos fum! O coraçóm nunca esqueze
des-que nos deixou sem patria o turco ...

A vinganza nos dá a esperanza e nos aluminha,
mas o vento sopra forte e geado
Que pasou cos Arbëreshi para irem esquecendo:
Nada me envergonha, mas estou a cair co sono.



(traduçóm ao “galego de seu“ apartir da traduçóm doutra lingua etérea: o “português da Galiza“)

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Re: “Só poesia”

Mensagem  Isabel em Seg Jan 31, 2011 1:38 pm

- ha ha ha...!, dizia uma
quando lia a tradução:
ímpeto virou fogaxe,
como se for erupção
em nariz adolescente,
que de seu os galeguinhos
ímpeto não podem ter,
se querem ser coitadinhos.

- O que sim que não me explico,
ficou pensando a risonha,
é por que raio aparece
com toda a desvergonha
o ímpeto bem registado
como uma palavra grave
no antigo Carré Alvarelhos
e também no Franco Grande...?

(este último, pobre homem,
que sina a sua, por Zeus!,
que nascer com esse nome
dá para enforcar aos seus...)



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Sem acridão, mas com uma miga de retranca.

Mensagem  Joanlogo em Seg Jan 31, 2011 2:43 pm

Este galego Gascon,
que é um “galego moi seu”,
com toda a força meteu
nossa fala num caixão.
Mas, mália, com tal tesão
contra etéreas foi rotundo
que negou que lá no fundo
nossa língua aquém do mar
seja a mesminha a cantar
nos quatro cantos do mundo.

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Re: “Só poesia”

Mensagem  Gascon em Seg Jan 31, 2011 3:27 pm

Seica por tamém ser eu albano
dos da ilha do oceano grande
nom lhes ficou bem claro
das verbas o senso meirande

eu nom pechei a fala galega
em caixom nenhúm
mas apenas abrim outra gaveta
aquela esquencida, secreta
que agocha o mais formoso
e sagrado: a fala anterga

quem se envergonhar dos avós
por serem pobres e enxebres
e pensar que o velho galego
nom presta e nom serve
vai axinha se decatar

que o ímpeto logo se apaga
e todo o que resta
é aquilo que espalhou nosa fala
polo mar e pola terra:
a verba galega, a fogaxe







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Re: “Só poesia”

Mensagem  Isabel em Seg Jan 31, 2011 3:38 pm

Bem se vê, Joanlogo
o que aqui acontece:

de novo a mistura
entre língua escrita
e a fala pura

mas ao tal de antergo
falha-lhe o palrado
não tem ritmo certo
e não dá rimado!
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Re: “Só poesia”

Mensagem  Gascon em Seg Jan 31, 2011 4:17 pm

E normal que em Pandora
tudo se vexa tam claro
mas eu nom som azulado
nem um heroi ou um rapsoda

Escrever ou falar rimado
nom é arte tam sagrado
que nom se deva quebrar o ritmo
nem a rima

Eu nom som escravo de regras
outras que as da vida mesma
tanto me tem a norma
e a ortografia portuguesa

sexa fala sexa escrita
o galego é o meu guia
Se falam galego noutras terras
quem som eu pra nega-lo?

O que eu sei nom importa
conta é aquilo que eu fazo
nom mudar a minha fala
em vao ímpeto lusitano

Quem quixer a deusa Lusofonia
lhe guiar à terra prometida
vai ficar muito desapontada
quando descobrir quem é:
estatua imovel d’ouro, e mais nada

Eu xa nom tenho medo
A minha lingua é a minha patria
com ela eu me entendo e ando:
a fogaxe do galego
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Re: “Só poesia”

Mensagem  Isabel em Ter Fev 01, 2011 1:33 am

O impeto galego
é claro, desconheces
e isso que cho disse
já vai pra várias vezes.

Abre algum dicionário
tão só por uma vez
inda que sejas vesgo
e leias de través.

Inda que o entendimento
te falhe a cada pouco
algum momento certo
cairá do teu petouto.

Que ler é cousa boa
já o dizia a canção:
o mais analfabeto
é quem pode mas não.

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Re: “Só poesia”

Mensagem  cdurão em Ter Fev 01, 2011 3:54 am

Canción pra cando se escoita falar castrapo


Ollade esa antroidada: son galegos,
xente do pobo, sinxela e moi normal.
Olládeos, como un fato de borregos,
falando o seu castrapo "tipical".

Esprésanse nunha estrana xerigonza,
van falando un idioma que non hai.
E sinten fondo reparo, gran vergonza,
en falar, como é debido, a fala nai.

Ollade ós moi paletos e cretinos
ladrando o seu castrapo por aí,
intentando ser lidos, cultos, finos
imitando ós "castizos" de Madrí.

Eles, probes, non poden ser culpados
polo seu idioma, tristeiro i anormal.
A culpa é de quen di: "Sede educados,
que falar galego está moi mal..."

Manuel María, Obra poética completa I (1950-1979)

(http://estrolabio.blogs.sapo.pt/ Sempre Galiza!)

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Eugenio MONTALE, Ossi di seppia (1925)

Mensagem  Pedro Bravo em Ter Fev 01, 2011 3:25 pm

NON CHIEDERCI LA PAROLA ---------------------------------- NÃO NOS PEÇAS A PALAVRA

Non chiederci la parola che squadri da ogni lato---------------- Não nos peças a palavra que acerte cada lado
l'animo nostro informe, e a lettere di fuoco ------------------- de nosso ânimo informe, e com letras de fogo
lo dichiari e risplenda come un croco -------------------------- o aclare e resplandeça como açaflor
perduto in mezzo a un polveroso prato.----------------------- perdido em meio de poeirento prado.

Ah l'uomo che se ne va sicuro, ------------------------------- Ah o homem que lá se vai seguro,
agli altri ed a se stesso amico, ------------------------------- dos outros e de si próprio amigo,
e l'ombra sua non cura che la canicola ------------------------ e sua sombra descura que a canícula
stampa sopra uno scalcinato muro! -------------------------- estampa num escalavrado muro!

Non domandarci la formula che mondi possa aprirti, ---------- Não nos peças a fórmula que possa abrir mundos,
sì qualche storta sillaba e secca come un ramo.--------------- e sim alguma sílaba torcida e seca como um ramo.
Codesto solo oggi possiamo dirti, ---------------------------- Hoje apenas podemos dizer-te
ciò che non siamo, ciò che non vogliamo.--------------------- o que não somos, o que não queremos.

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Nem galenhol, nem português

Mensagem  Gascon em Ter Fev 01, 2011 3:53 pm

É-che-me bem divertido
ver coma estes lusolatras
se xulgam os mais sabidos
e sempre escrevem palavras
pra falar o sem-sentido

Se entendesem o que falam
em vez de o falar sem tino
saberiam bem o dito
tal como se le em Montale:
nom há fórmula canora
que nos diga o que nós somos
nem ha fe que nos conduza
ao planeta azul Pandora
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Madrid ou Lisboa

Mensagem  Gascon em Ter Fev 01, 2011 4:13 pm

Seica antes os galegos
quando iam pra Madrid
nom diziam moita cousa
por medo de fazer rir

mas agora que xa sabem
coma falar na vila e corte
querem ser sempre milhores
e em Lisboa ir de porte

se voltarem pra terrinha
haviam ver decontado
que na terra da Galiza
tinham todo o seu morgado

a fala e mais a escrita
que deixarom os antergos
que é muito parecida
com aquela dos curmãos

de Portugal
e do Brasil
e doutras partes

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Re: “Só poesia”

Mensagem  cdurão em Qua Fev 02, 2011 6:14 am


Memória

É-me urgente, hoje, oh meu povo!
tantas vezes, solidário, a tua memória,
mas ainda, mais premente, é a tua,
povo irmão, meu, palestino: eis aqui,
da minha, à tua, pátria, inexistente,
meu amor, teu destino, nossa história!

(C.H. Benengeli)

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William BLAKE, Songs of Innocence (1789)

Mensagem  Pedro Bravo em Dom Fev 06, 2011 12:07 pm

The Chimney Sweeper

When my mother died I was very young,
And my father sold me while yet my tongue
Could scarcely cry ‘weep! weep! weep! weep!’
So your chimneys I sweep, & in soot I sleep,

There’s little Tom Dacre, who cried when his head,
That curl’d like a lamb’s back, was shav’d: so I said
‘Hush, Tom! Never mind it, for when your head’s bare
‘You know that the soot cannot spoil your white hair.’

And so he was quiet, & that very night,
As Tom was a-sleeping, he had such a sight!
That thousands of sweepers, Dick, Joe, Ned, & Jack,
Were all of them lock’d up in coffins of black.

And by came an Angel who had a bright key,
And he open’d the coffins & set them all free;
Then down a green plain leaping, laughing, they run.
And wash in a river, and shine in the Sun.

Then naked & white, all their bags left behind,
They rise upon clouds and sport in the wind;
And the Angel told Tom, if he’d be a good boy,
He’d have God for his father, & never want joy.

And so Tom awoke; and we rose in the dark,
And got with our bags & our brushes to work.
Tho’ the morning was cold, Tom was happy & warm;
So if all do their duty they need not fear harm.



O LIMPADOR DE CHAMINÉS

Eu era bem novo, e minha mãe morria;
e meu pai vendeu-me quando eu mal sabia
balbuciar, chorando: “’dor! ‘dor! ‘dor! ‘dor! ‘dor!”
Assim, sujo e escuro, sou o limpador.
Aquele é Tom Dracre, que chorou na vez
em que lhe rasparam a cabeça: “Vês –
consolei-o – Tom, que é bom não ter cabelo,
pois assim fuligem não te suja o pêlo.”
Assim se acalmou, e numa noite escura
Tom, dormindo, teve esta visão futura:
que mil limpadores – josés e joões –
foram confinados em negros caixões.
E então veio um Anjo, com uma chave branca,
e os tirou do escuro, destravando a tranca;
e então, entre risos, ao campo saíram,
no rio lavaram-se, e ao sol reluziram.
Sem sacos às costas, despida a camisa,
voaram nas nuvens, brincaram na brisa;
disse o Anjo a Tom que, se fosse bonzinho,
Deus feliz tomava-o como seu filhinho.
E, após, despertando, foi na escuridão
apanhar seu saco mais seu esfregão,
e saiu alegre na manhã gelada.
Quem seu dever cumpre não receia nada.

Canções da Inocência e da Experiência. Tradução de Renato Suttana. PDF

Nota da tradutora para castelhano, Elena Valentí:

Este poema apareceu em The Chimney Sweeper’s Friend and Climbing Boy’s Album publicado por James Montgomery em 1824. Esta publicação formou parte da campanha da época para a abolição do cruel uso de crianças de cinco a sete anos como desenfeluxadores. Tal como indica o poema, as crianças eram realmente vendidos pelos pais, posto que eram eles os que cobravam pelo seu trabalho. Ao cabo de quatro ou cinco anos de empolicar-se por estreitas chaminés, os cativos ficavam num estado físico tal que raramente podiam emprender outro ofício. Normalmente se passavam o resto das suas vidas como mendigos destinados permanentemente a uma paróquia.
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Re: “Só poesia”

Mensagem  Isabel em Dom Fev 06, 2011 12:55 pm

Que beleza! Que espanto...!


Dor, dor, dor, dor...!
Sou o limpador!
Minha mãe vendeu-me
por umas moedas.
Saem sem pudor
da sua boca trevas.
Mas quem tem bom cor
não teme às feras.
Casado coa dor
limpa, limpador!
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Paul CELAN, Todesfuge (Mohn und Gedächtnis, 1952)

Mensagem  Pedro Bravo em Seg Fev 07, 2011 1:04 pm

TODESFUGE - FUGA DA MORTE (Ópio e Memória, 1952)

Schwarze Milch der Frühe wir trinken sie abends
wir trinken sie mittags und morgens wir trinken sie nachts
wir trinken und trinken
wir schaufeln ein Grab in den Lüften da liegt man nicht eng
Ein Mann wohnt im Haus der spielt mit den Schlangen der
schreibt der schreibt wenn es dunkelt nach Deutschland dein goldenes Haar Margarete
er schreibt es und tritt vor das Haus und es blitzen die Sterne er pfeift seine Rüden herbei
er pfeift seine Juden hervor läßt schaufeln ein Grab in der Erde
er befiehlt uns spielt nun zum Tanz

Leite negro da aurora bebemos-te à tarde
bebemos-te cedo e no dia bebemos-te à noite
e bebemos bebemos
cavamos um túmulo no ar onde não se há de estar apertado
Mora um homem na casa que lida com cobras que escreve
quando descem as sombras escreve à Alemanha teu áureo cabelo Margarete
ele escreve e se afasta da casa e cintilam estrelas assovia chamando os mastins
e assovia judeus seus judeus cavem fundo uma cova na terra
agora nos manda tocar para a dança


Schwarze Milch der Frühe wir trinken dich nachts
wir trinken dich morgens und mittags wir trinken dich abends
wir trinken und trinken
Ein Mann wohnt im Haus und spielt mit den Schlangen der schreibt
der schreibt wenn es dunkelt nach Deutschland dein goldenes Haar Margarete
Dein aschenes Haar Sulamith wir schaufeln ein Grab in den Lüften da liegt man nicht eng

Leite negro da aurora bebemos-te à noite
bebemos-te cedo e no dia bebemos-te à tarde
e bebemos bebemos
Mora um homem na casa ele brinca com cobras e escreve
quando baixam as sombras escreve à Alemanha teu áureo cabelo Margarete
Teu cabelo de cinza Sulamita cavamos um túmulo no ar onde não se há se estar apertado


Er ruft stecht tiefer ins Erdreich ihr einen ihr anderen singet und spielt
er greift nach dem Eisen im Gurt er schwingts seine Augen sind blau
stecht tiefer die Spaten ihr einen ihr andern spielt weiter zum Tanz auf

Grita cavem mais fundo essa terra vocês acolá vocês cantem e toquem
pega o ferro do cinto balança-o seus olhos azuis
cavem fundo essas pás vocês estes aqueles não parem a música a dança


Schwarze Milch der Frühe wir trinken dich nachts
wir trinken dich morgens und mittags wir trinken dich abends
wir trinken und trinken
ein Mann wohnt im Haus dein goldenes Haar Margarete
dein aschenes Haar Sulamith er spielt mit den Schlangen

Leite negro da aurora bebemos-te à noite
bebemos-te cedo e no dia bebemos-te à tarde
e bebemos bebemos
mora um homem na casa teu áureo cabelo Margarete
teu cabelo de cinza Sulamita ele brinca com cobras


Er ruft spielt süßer den Tod der Tod ist ein Meister aus Deutschland
er ruft streicht dunkler die Geigen dann steigt ihr als Rauch in die Luft
dann habt ihr ein Grab in den Wolken da liegt man nicht eng

Grita toquem a morte mais doce é a morte um dos mestres senhor da Alemanha
grita toquem mais sombra os violinos depois subam como fumaça
e hão de ter uma cova nas nuvens que lá não se fica apertado


Schwarze Milch der Frühe wir trinken dich nachts
wir trinken dich mittags der Tod ist ein Meister aus Deutschland
wir trinken dich abends und morgens wir trinken und trinken
der Tod ist ein Meister aus Deutschland sein Auge ist blau
er trifft dich mit bleierner Kugel er trifft dich genau
ein Mann wohnt im Haus dein goldenes Haar Margarete
er hetzt seine Rüden auf uns er schenkt uns ein Grab in der Luft
er spielt mit den Schlangen und träumet der Tod ist ein Meister aus Deutschland

Leite negro da aurora bebemos-te à noite
bebemos-te à tarde é a morte um dos mestres senhor da Alemanha
bebemos-te à noite ou bem cedo e bebemos bebemos
a morte é um mestre senhor da Alemanha seu olho é azul
ele acerta-te a bala de chumbo te acerta na mosca
mora um homem na casa teu áureo cabelo Margarete
ele atiça os mastins contra nós e nos dá uma cova nos ares
ele lida com cobras e sonha é a morte um dos mestres senhor da Alemanha


dein goldenes Haar Margarete
dein aschenes Haar Sulamith

teu áureo cabelo Margarete
teu cabelo de cinza Sulamita


Nota do tradutor: Na tradução deste poema, tentei reproduzir o ritmo anapéstico do original. Onde isso não foi possível, optei pela fidelidade ao sentido. Os versos "dein goldenes Haar Margarete / dein aschenes Haar Sulamith" ("teus cabelos dourados Margarete / teus cabelos de cinza Sulamita"), tão importantes no contexto, são evidentemente intransponíveis para o português sem o sacrifício desse ritmo.

Tradução de Renato Suttana - O ARQUIVO DE RENATO SUTTANA
Outra tradução: Modesto Carone
Outra tradução (com observações) de Leandro Konder - REVISTA: ESTUDOS DE SOCIOLOGIA



Ainda que esta animação me parece um pouco irreverente acho a interpretação clara e equilibrada.
Semelha que Ópio e Memória é a traduçao consagrada em português. Em castelhano traduziu-se o título como Papoula e Memória.

EDITO: mudei o video porque o anterior (este: http://www.youtube.com/watch?v=gVwLqEHDCQE&feature=related), ao que se referia a anterior observação, foi inabilitado. Aparecia esta mensagem: Este vídeo já não está disponível porque a conta de Youtube associada a ele se cancelou devido a várias notificações de infrações de direitos de copyright procedentes de terceiros. Espero que o novo não esteja submetido às mesmas restrições.
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Pedro Bravo

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Re: “Só poesia”

Mensagem  Isabel em Ter Fev 08, 2011 3:19 pm


NOTURNO DE BURGO BAIXO

Enovelados no fulgor da Lua
os faróis nas poças alucinantes,
co gesto arrecadado do assassino
lavam as longas mãos cheias de sangue.

Pelas ruas eivadas desprunava
o alvar riola das fugidas horas.
O tempo foi deitar-se entre as montanhas
no leito branco e mol' das nuvens mortas.

No silêncio há um crime inconfesso,
a noite tem o coração fendido,
dos seus olhos cegados pelas trevas
escoa a vida num gemer de rio.


Luís G. Amado Carvalho (1901-1927)
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Isabel

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Re: “Só poesia”

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