“Só poesia”

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“Só poesia”

Mensagem  cdurão em Dom Jan 09, 2011 1:57 pm

(Não sei se é este o lugar ajeitado para iniciar uma seção, que poderia ser “Só poesia”, em homenagem à desaparecida dos foros do PGL, e pedi permisso a um velho conhecido dali, para aqui deixar os seus magros versos...)


Remanso

No mar, na Terra, pairava
o horizonte, onde foi
sumindo, num sonho, o teu navio
e deixei, de te ver: subi, na angústia,
ao mais alto, para não! te perder,
e rompeu, em mim, amor,
esta palavra, que foi ter
na tua praia, aos teus pés,
humilde, a remansar.

(Cide Hamete Benengeli)

cdurão

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Duas traduções de The Raven. E qual delas duas é a melhor?

Mensagem  Joanlogo em Dom Jan 09, 2011 6:04 pm



Ilustração de Gustave Doré para uma edição do poema, 1864

O Corvo. tradução de Machado de Assis

Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
E disse estas palavras tais:
"É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais."

Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora.
E que ninguém chamará mais.

E o rumor triste, vago, brando
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido,
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de pronto, e: "Com efeito,
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
Há de ser isso e nada mais."

Minh'alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo e desta sorte
Falo: "Imploro de vós, — ou senhor ou senhora,
Me desculpeis tanta demora.
Mas como eu, precisando de descanso,
Já cochilava, e tão de manso e manso
Batestes, não fui logo, prestemente,
Certificar-me que aí estais."
Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais.

Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta;
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu, como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.

Entro coa alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:
"Seguramente, há na janela
Alguma cousa que sussurra. Abramos,
Eia, fora o temor, eia, vejamos
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais.
Devolvamos a paz ao coração medroso,
Obra do vento e nada mais."

Abro a janela, e de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e reto,
Movendo no ar as suas negras alas,
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais.

Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo, — o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: "O tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais;
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?"
E o corvo disse: "Nunca mais".

Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Cousa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é seu nome: "Nunca mais".

No entanto, o corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda a sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: "Perdi outrora
Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora."
E o corvo disse: "Nunca mais!"

Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
"Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: "Nunca mais".

Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;
E mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera
Achar procuro a lúgubre quimera,
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: "Nunca mais".

Assim posto, devaneando,
Meditando, conjeturando,
Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava.
Conjeturando fui, tranqüilo a gosto,
Com a cabeça no macio encosto
Onde os raios da lâmpada caíam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam,
E agora não se esparzem mais.

Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso,
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível;
E eu exclamei então: "Um Deus sensível
Manda repouso à dor que te devora
Destas saudades imortais.
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora."
E o corvo disse: "Nunca mais".

“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
Onde reside o mal eterno,
Ou simplesmente náufrago escapado
Venhas do temporal que te há lançado
Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?"
E o corvo disse: "Nunca mais".

“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais,
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!”
E o corvo disse: "Nunca mais."

“Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa!
Regressa ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fique no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua.
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua."
E o corvo disse: "Nunca mais".

E o corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e, fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!





O Corvo Tradução de Fernando Pessoa

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais".

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isso só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
"É o vento, e nada mais."

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
Disse o corvo, "Nunca mais".

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome "Nunca mais".

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigos, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".
Disse o corvo, "Nunca mais".

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este "Nunca mais".

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais".

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ânsia e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
E a minhalma dessa sombra que no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!

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Re: “Só poesia”

Mensagem  cdurão em Seg Jan 10, 2011 10:16 am

Hei de cantar, hei de rir,
hei de ser muito alegre,
hei de mandar a tristeza
para o demo que a leve

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Re: “Só poesia”

Mensagem  cdurão em Ter Jan 11, 2011 6:26 am

(versão original de «A Portuguesa», que a República adotou como hino nacional. Para não ofender os «mais antigos aliados», na letra do hino os “Bretões” foram substituídos por «canhões»: os canhões que os “aliados” teriam disparado dos navios da sua poderosa esquadra naval (a maior do mundo, na altura), destruindo as cidades portuguesas, se a monarquia não tivesse vergado ao humilhante ultimato inglês de 11 de janeiro de 1890:)

I
Heróis do mar, nobre povo,

Nação valente, imortal,

Levantai hoje de novo

O esplendor de Portugal!

Entre as brumas da memoria,

Oh pátria sente-se a voz

Dos teus egrégios avós,

Que há-de guiar-te à vitória!
Às armas, às armas!

Sobre a terra, sobre o mar,

Às armas, às armas!

Pela pátria lutar!

Contra os Bretões marchar, marchar!

II
Desfralda a invicta bandeira,

À luz viva do teu céu!

Brade a Europa á terra inteira:

Portugal não pereceu!

Beija o teu solo jucundo

O Oceano, a rugir de amor;

E o teu braço vencedor

Deu mundos novos ao mundo!
Às armas, às armas!

Sobre a terra, sobre o mar,

Às armas, às armas!

Pela pátria lutar!

Contra os Bretões marchar, marchar!

III
Saudai o sol que desponta

Sobre um ridente porvir;

Seja o eco de uma afronta

O sinal do ressurgir.

Raios dessa aurora forte

São como beijos de mãe,

Que nos guardam, nos sustêm,

Contra as injurias da sorte.
Às armas, às armas!

Sobre a terra, sobre o mar,

Às armas, às armas!

Pela patria lutar!

Contra os Bretões, marchar marchar!

(tirado do Estrolabio: http://estrolabio.blogspot.com/)

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Re: “Só poesia”

Mensagem  cdurão em Qui Jan 13, 2011 7:16 am

Coitadinho de quem tem
seu amor além do rio;
quer-lhe falar e não pode,
do coração faz navio.

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Umberto Saba: Città vecchia

Mensagem  Pedro Bravo em Sab Jan 15, 2011 2:51 pm

Umberto Saba (1883-1957): Città vecchia .

Spesso, per ritornare alla mia casa
prendo un'oscura via di città vecchia.
Giallo in qualche pozzanghera si specchia
qualche fanale, e affollata è la strada.

Qui tra la gente che viene e che va
dall'osteria alla casa o al lupanare,
dove son merci e uomini il detrito
di un gran porto di mare,
io ritrovo, passando, l'infinito
nell'umanità.
Qui prostituta e marinaio, il vecchio
che bestemmia, la femmina che bega,
il dragone che siede alla bottega
del friggitore,
la tumultuante giovane impazzita
d'amore,
sono tutte creature della vita
e del dolore;
s'agita in esse, come in me, il Signore.

Qui degli umili sento in compagnia
il mio pensiero farsi
più puro dove più turpe è la via.

.............................................................

Muitas vezes, para retornar à minha casa
tomo uma escura rua da cidade velha.
Amarelo em qualquer poça se reflete
qualquer fanal, e ateigada é a calçada.

Aqui entre a gente que vem e vai
da hospedaria à casa ou ao lupanar,
onde são mercadorias e homens o detrito
de um grande porto de mar,
eu reencontro, passando, o infinito
na humildade.
Aqui prostituta e marinheiro, o velho
que blasfema, a dona que briga,
o dragão que senta na oficina
do frigiteiro,
a tumultuante mocinha doente
de amor,
são todos criaturas da vida
e da dor;
agita-se neles, como em mim, o Senhor.

Aqui, em companhia dos humildes, sento
o meu pensar fazer-se
mais puro onde mais turva é a rua.




Última edição por Pedro Bravo em Seg Jan 17, 2011 4:35 pm, editado 1 vez(es)
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Re: “Só poesia”

Mensagem  cdurão em Dom Jan 16, 2011 11:44 pm

Dezassete de janeiro
S. António lacoeiro

(Pop.)

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Re: “Só poesia”

Mensagem  Isabel em Seg Jan 17, 2011 3:25 pm


ESCURO SINO

Pra arredá-la do seu escuro sino
debalde foi que se juntasse o Medo
coa imponente mudez de ermo penedo,
coa queixa vaga do harmonioso pino.

A musa queiroguenta que me assiste
da rigidez dos montes está ao cabo,
e ama a flor marelinha porque é triste,
e a presença do tojo, porque é bravo.

Melhor que a luz, Phebea? Céu torvo!
Antes que o pintassilgo? Negro corvo!
Entre seixos a auguinha que ela bebe...

São brenhosos os cimbros onde inverna,
e é uma moça, descalça de pé e perna,
trepando cardos, encarando a neve!


A. Noriega Varela (Alfar, vol. 2, pág. 76)
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Re: “Só poesia”

Mensagem  mceleiro em Seg Jan 17, 2011 3:49 pm

Oscar Niemeyer não é escritor, mas conseguiu materializar estas palavras na importante obra arquitetônica e escultórica deste genial comunista de 103 anos de idade, 103 anos de lucidez:


Não é o ângulo reto que me atraia.
Nem a linha reta, dura, inflexível,
criada pelo homem.
O que me atrai é a curva livre e sensual.
A curva que encontro nas montanhas
do meu país,
no curso sinuoso dos seus rios,
nas ondas do mar,
nas nuvens do céu,
no corpo da mulher preferida.
De curvas é feito todo o Universo.
O Universo curvo de Einstein





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Re: “Só poesia”

Mensagem  Isabel em Ter Jan 18, 2011 3:17 pm


Canção Perdida


Halitos de lilaz, de violeta e d'opala,
Roxas macerações de dor e d'agonia,
O campo, anoitecendo e adormecendo, exhala...

Triste, canta uma voz na sincope do dia:

Alguém de mim se não lembra
Nas terras d'além mar...
Ó Morte, dava-te a vida,
Se tu lh'a fosses levar!...
Ó Morte, dava-te a vida,
Se tu lh'a fosses levar!...

Como o beijo do sol na face cadaverica,
Beijo que a morte esvae em pallidez algente,
Eis a lua a boiar sonambula e chimerica...

Doce, canta uma voz melancolicamente:

O meu amor escondi-o
N'uma cova ao pé do mar...
Morre o amor, vive a saudade...
Morre o sol, olha o luar!...
Morre o amor, vive a saudade...
Morre o sol, olha o luar!...

Latescente a neblina opalica fluctua,
Diluindo, evaporando os montes de granito
Em colossos de sonho, extasiados de lua...

Flebil, chora uma voz no letargo infinito:

Quem dá ais, ó rouxinol,
Lá para as bandas do mar?...
É o meu amor que na cova
Leva as noites a chorar!...
É o meu amor que na cova
Leva as noites a chorar!...

A lua enorme, a lua argentea, a lua calma,

Imponderalisou a natureza inteira,
Descondensou-a em fluido e embebeu-a em alma.
Triste expira uma voz na canção derradeira:

Meu amor, dorme, dorme
Na areia fina do mar,
Que em antes da estrella d'alva
Comtigo me irei deitar!...
Que em antes da estrella d'alva
Comtigo me irei deitar!...


Guerra Junqueiro (Alfar, vol. 1, pág. 403)
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Paul Valéry, Le Cimetière Marin (1920)

Mensagem  Pedro Bravo em Qua Jan 19, 2011 2:18 pm



O lema e a estrofe décimo-sexta deste poema de vinte e quatro diamantes. Tradução: Jorge Wanderley

Me, phila psukha, Bion athanaton
spheude, tan demphrakton anlei makhanan.

Ó minha alma, não aspira à vida
imortal, mas esgota o campo do possível.


(Pindare. Phythiques III)

Les cris aigus des filles chatouillées,
Les yeux, les dents, les paupières mouillées,
Le sein charmant qui joue avec le feu,
Le sang qui brille aux lèvres qui se rendent,
Les derniers dons, les doigts qui les défendent,
Tout va sous terre et rentre dans le jeu!

Os gritos das donzelas excitadas,
Os olhos, dentes, pálpebras molhadas,
O seio, encanto que brinca com fogo,
O sangue, luz nos lábios que se rendem,
Os bens finais e os dedos que os defendem,
Tudo retorna à terra e ao mesmo jogo!


Original e tradução para português de Jorge Wanderley (PDF)
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Re: “Só poesia”

Mensagem  cdurão em Qui Jan 20, 2011 12:29 am

"Tout va sous terre et rentre dans le jeu!"

(pas du tout! "La mer, toujours recommencée": la mer, c'est nous!)

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Charles Baudelaire: A une passante.

Mensagem  Pedro Bravo em Qui Jan 20, 2011 3:20 pm

la mer, c'est nous!
Homme libre, toujours tu chériras la mer!

A uma passante

A rua em derredor era um ruído incomum,
longa, magra, de luto e na dor majestosa,
Uma mulher passou e com a mão faustosa
Erguendo, balançando o festão e o debrum;

Nobre e ágil, tendo a perna assim de estátua exata.
Eu bebia perdido em minha crispação
No seu olhar, céu que germina o furacão,
A doçura que embala o frenesi que mata.

Um relâmpago e após a noite! — Aérea beldade,
E cujo olhar me fez renascer de repente,
So te verei um dia e já na eternidade?

Bem longe, tarde, além, jamais provavelmente!
Não sabes aonde vou, eu não sei aonde vais,
Tu que eu teria amado — e o sabias demais!

(Trad. Paulo Menezes)

Tradução de Paulo Menezes
Texto francês e tradução de Marco Antonio Frangiotti
Mais uma tradução



La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d’une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l’ourlet;

Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l’ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair... puis la nuit! - Fugitive beauté
Dont le regard m’a fait soudainement renaitre,
Ne te verrai-je plus que dans l’éternité?

Ailleurs; bien loin d’ici! Trop tard! Jamais peut-être!
Car j’ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
O toi que j’eusse aimée, ô toi qui le savais!
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Re: “Só poesia”

Mensagem  cdurão em Sex Jan 21, 2011 1:02 am

A morte

"La mer, toujours recommencée"
(P. Valéry, Le Cimetière Marin)

Afazer-nos-emos, à morte, passará,
por nós, deixá-la-emos, na maré,
ir, consumar, o seu destino, não poderá,
prevalecer, acabará, em se consumir,
e o mar, entrando, à Terra, nos refará.

(C. H. Benengeli)

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Re: “Só poesia”

Mensagem  Isabel em Sab Jan 22, 2011 3:37 am


De como a arte surge da vida e como é inútil pretender o contrário:

http://recantodasletras.uol.com.br/prosapoetica/2719069
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Re: “Só poesia”

Mensagem  cdurão em Dom Jan 23, 2011 12:37 am

Ars longa, uita breuis... http://www.wimp.com/mirrorprank/

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Re: “Só poesia”

Mensagem  Isabel em Dom Jan 23, 2011 3:58 am


ARS LONGA

Um poema só termina por acidente de publicação ou de morte do autor.

Mário Quintana (Caderno H)
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Re: “Só poesia”

Mensagem  Pedro Bravo em Dom Jan 23, 2011 7:47 am

Escreve Isabel:

De como a arte surge da vida e como é inútil pretender o contrário:

http://recantodasletras.uol.com.br/prosapoetica/2719069
SOBRE A SENTENÇA

0. Não entendo muito bem o que se quer dizer com isso, pois, a primeira vista, tanto o que é objeto de crítica, como o critério, como a possibilidade da crítica mesma parecem ir à contra do que se pretende.

Vou pressupor aqui que surgir de implica estar ao serviço de: portanto, que se defende que a arte é "uma manifestação" da vida e para a vida; e interpreto "contrário" mais como contraditório ("a arte não surge da vida"; ou "não toda arte surge da vida") que como converso ("a vida surge da arte"): portanto, que se defende que uma "arte autônoma" não faz sentido. Vou pressupor também que não são relevantes as distinções (1) moderna entre artes e belas artes e (2) antiga entre vida-biológica (zoe) e vida-biográfica (bios). Pois o sentido de ambas as diferenças vai à contra do sentido da tese, que é privilegiar a vida como âmbito de sentido.

1. Perguntaria de onde surge essa pretensão.

Ou da vida ou duma instância alheia.

Se do primeiro, então a vida também produziria inutilidades (a pretensão de separar-se nalgum sentido dela): mas se produz inutilidades, quer dizer que o juízo ou o critério de utilidade está fora da vida. Pretender que a arte não surge da vida pode ser inútil, mas não vai contra a vida. Se for inútil pretender separar-se da vida (ou daquilo do que um surge), não por isso seria vitalmente ilícito ou incompreensível. Ou, talvez melhor, a vida seria o incompreensível desde a categoria de utilidade.

Se do segundo, seja "o pensamento" ou "a morte" (não encontro outros candidatos que não sejam modulações desses, como “a moral” ou "a carência"), então o critério de utilidade não pode identificar-se, a risco de tautologia (por partir duma concepção técnica da vida), com a vida (o outro que a vida seria o inútil), também aqui tem de pertencer a uma instância superior à vida e ao contrário da vida de onde surge a pretensão. A utilidade/inutilidade seria transversal à vida/outro-que-a-vida.

2. Lembraria que precisamente a procura da utilidade é a definição tradicional da "ars" (techne).

A utilidade ou opõe ou integra arte e vida (natureza):

O primeiro admite duas possibilidades: a arte seria contrária ou oposta à vida (a) em tanto que útil ou (b) em tanto que inútil.

(a) ARTE ÚTIL, VIDA INÚTIL: Os que apelam à vida, tradicionalmente e com inteligência, fazem referência à sua proliferação, ao seu excesso, ao seu esbanjamento sobreabundante. No inútil se manifestaria a vida como fundo insondável. A vida superaria ou delataria como meramente humana a dicotomia útil / inútil. Que para a vida tudo possa ser útil (mesmo o que a destruí, sempre que possa reagir e seguir sendo vida) sugere o mesmo. A dicotomia é para nós, não para si.

Angelus Silesius, Cherubinischer Wandersmann, I
(1657, com outro título)

289. Ohne warumb.
Die Ros´ ist ohn warumb, sie blühet weil sie blühet,
Sie achtt nicht jhrer selbst, fragt nicht ob man sie sihet.


A rosa não tem porquê. Floresce porque floresce.
Não cuida de si mesma. Nem pergunta se alguém a vê.

(b) VIDA ÚTIL, ARTE INÚTIL: Os que apelam à l'art pour l'art, autônoma e mesmo oposta às pautas da vida social, concebem a esta como um mecanismo rotineiro e àquela como fonte de gratuidade, excesso, imprevisão, novidade, manifestação da liberdade humana frente à natureza.

O segundo também admite diversas interpretações ou vias (mas para chegar de novo ao mesmo): ou (a) se tecnifica a vida ou (b) se naturaliza a arte. A vida concebida tecnicamente (natura como ars) ou a arte concebida como (uma) função (mais) da vida.

(a) Os que vêem a vida como escassez tendem a concebê-la tecnicamente: o útil se reduz a útil para a vida, e a vida é vista como supervivência (e reprodução).

Como dize Aristóteles, cosa es verdadera,
el mundo por dos cosas trabaja: la primera,
por aver mantenencia; la otra cosa era
por aver juntamiento con fembra plazentera

(Juan Ruiz, Libro de Buen Amor)

Utilidade como viabilidade. A vida é frágil e contingente. A arte não teria mais função que fortalecer a vida, assegurar a supervivência. Poder-se-ia definir a arte como a manifestação da vida em contextos de escassez. Arte seria vida obrigada a ser consciente. “Aparelho” não seria metáfora quando falamos de “aparelho digestivo”.

(b) Se vemos a arte como expressão da vida, um aspecto do metabolismo entre o ser vivo (não só o homem) e a natureza (portanto, da relação da natureza consigo mesma), então os nossos produtos técnicos (um garfo, por exemplo) não seriam meras próteses artificiais, mas autênticos órgãos naturais (órgão, organismo como diferente de máquina, mecanismo, ainda que a palavra organon significa em grego instrumento...).

3. Inferiria que se trata duma constatação reflexiva, a inutilidade da arte que não surge da vida (essa arte contradiria seu conceito), e, portanto, dum pensamento sobre a arte e sobre a vida, pensamento que nem seria vida nem arte.

Tanto se o apotegma é conclusão dum razoamento prévio como se é resultado duma experiência chegamos mais uma vez ao mesmo resultado: a declaração faz-se desde a reflexão, e esta reflexão ou é distinta (e potencialmente contrária) à vida ou é uma função dela (ou, quase melhor, sua manifestação mais plena: pois é mais determinado “vida reflexiva” que “mera vida”). A declaração se contradiria pragmaticamente: pretende privilegiar a vida desde uma instância alheia à vida.

[Metarreflexão: se o valor da vida é proclamado pelo vitalmente denegrido então o vitalismo não pode acreditar em si próprio.]

So lernt ich traurig den verzicht:
Kein ding sei wo das wort gebricht.

(Stefan George, Das Wort, 1919, dístico final)

Triste assim eu aprendi a renunciar:
Nenhuma coisa que seja onde a palavra faltar.

Tradução Marcia Sá Cavalcante Schuback

SOBRE A REFERÊNCIA

Li o poema da ligação um par de vezes e não interpretei no mesmo sentido, mas no contrário: parece que a autora se compraz na celebração da inutilidade da poesia, ou que faz poesia da inutilidade.

EM DEFINITIVA

Primum vivere deinde philosophare, dizem alguns.

Navigare necesse est, vivere non est necesse, respondem outros.
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Re: “Só poesia”

Mensagem  Isabel em Dom Jan 23, 2011 9:47 am

Shocked Very Happy

Primeiro mando esta resposta agradecida e espantada pela longitude do comentário do caro Pedro Bravo. Não pensei que alguém pudesse pedir explicação das minhas parvadas, mas já que por algum estranho motivo gerou tanta curiosidade, tentarei corresponder como se merece o comentário anterior.

Agora vou ler direitinho tudo quanto Pedro escreveu aí e tratarei de responder o melhor e o antes possível.

Quero lembrar que este é um fio de poesia, assim que deixo mais uma para não convertê-lo num fio de comentários sobre poesia, cousa que nada tem a ver com a poesia, na minha ignorante opinião.


EU ESCREVI UM POEMA TRISTE

Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!

Mario Quintana - A Cor do Invisível
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Re: “Só poesia”

Mensagem  Isabel em Dom Jan 23, 2011 10:21 am

Pedro Bravo escreveu:Escreve Isabel:

De como a arte surge da vida e como é inútil pretender o contrário:

http://recantodasletras.uol.com.br/prosapoetica/2719069
SOBRE A SENTENÇA

0. Não entendo muito bem o que se quer dizer com isso, pois, a primeira vista, tanto o que é objeto de crítica, como o critério, como a possibilidade da crítica mesma parecem ir à contra do que se pretende.

Vou pressupor aqui que surgir de implica estar ao serviço de: portanto, que se defende que a arte é "uma manifestação" da vida e para a vida; e interpreto "contrário" mais como contraditório ("a arte não surge da vida"; ou "não toda arte surge da vida") que como converso ("a vida surge da arte"): portanto, que se defende que uma "arte autônoma" não faz sentido. Vou pressupor também que não são relevantes as distinções (1) moderna entre artes e belas artes e (2) antiga entre vida-biológica (zoe) e vida-biográfica (bios). Pois o sentido de ambas as diferenças vai à contra do sentido da tese, que é privilegiar a vida como âmbito de sentido.


Não, caro. Surgir significa surgir:

surgir - Conjugar
v. intr.
1. Aparecer de repente.
2. Erguer-se.
3. Despontar.
4. Emergir.
5. Irromper.
6. Despertar.
7. Aportar.
8. Sobrevir.
etc.
http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=surgir


Ou seja, a arte surge da vida. Emerge dela, sai dela, é a vida quem dá faculdades aos humanos para fazerem artes humanas.

E não ao contrário, o contrário é: "a vida surge da arte". É inútil pretender viver através da arte, isso não é vida. Prefiro dizer «das artes» em plural. As artes são produto de vida e de criação vital. As artes humanas são criaturas, nascidas. Não criadoras. As criadoras são as pessoas humanas vivas, com todas as consequências...


Pedro Bravo escreveu:Li o poema da ligação um par de vezes e não interpretei no mesmo sentido, mas no contrário: parece que a autora se compraz na celebração da inutilidade da poesia, ou que faz poesia da inutilidade.

Não, a autora não fala da inutilidade da poesia, mas da inutilidade em geral. A caríssima (conhecida e amiga) autora simplesmente está a dizer que o seu amor é inútil, e quanto mais inútil é, maior é. Que não cabe num oceano e que pode arrastar rios de famílias com filhos e esposos e toda a parentela, porque não existe nada que possa conter a inutilidade formosa de um grande amor.

Que o seu amor é grande como a grande poesia, a mais inútil de todas as cousas. E para dizer isso, faz uma canção para cantarem os passarinhos, que não são (bom, acordemos isso) humanos e portanto a sua beleza não se considera artística (é ou não é?) mas natural. E aí natural significa, para os humanos (não para os passarinhos), INÚTIL.

Isso foi até que inventaram os discos Chill out e meteram na cabeça das pessoas que a utilidade do canto dos pássaros é a de servir como relaxante e diminuidor do estrés... E as pessoínhas, tão humanas, a acreditarem e a ouvirem do salão do apartamento os CDs do tal label e do outro label gravados nas casas discográficas mais importantes dos EUA ou da China, na procura de uma calma que nos seus prédios de quinze andares não conseguem achar...

Mas já me fui do assunto.


Pedro Bravo escreveu:EM DEFINITIVA

Primum vivere deinde philosophare, dizem alguns.

Navigare necesse est, vivere non est necesse, respondem outros.


Viver é imprescindível para navegar. Qualquer navegação sem vida é apenas fumo e não dá frutos artísticos. O fumo, fumo é e dissipa-se no ar.


Última edição por Isabel em Dom Jan 23, 2011 10:36 am, editado 1 vez(es)
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Re: “Só poesia”

Mensagem  Isabel em Dom Jan 23, 2011 10:27 am

Ah, mas o mais importante não está só no poema. O poema abre uma porta, é a porta de uma sala. Mas a sala não está vazia... No fim do poema, num canto da sala, um passarinho tiritante, vibrante de amor tenta aprender a canção que para ele escreveram...


----------------------------------------------------


Vai mais um, de outro estilo, de outra vida:

Desencanto

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.


Manuel Bandeira


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Re: “Só poesia”

Mensagem  cdurão em Ter Jan 25, 2011 1:05 am

Olhos verdes são traidores,

os azuis são mentireiros,

os negros e acastanhados
são firmes e verdadeiros [...]

Na beira, na beira,
na beira do mar

hai uma lanchinha
pra ir a navegar [...]

(Pop., e politicamente incorreto no séc. XXI?)

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Re: “Só poesia”

Mensagem  Pedro Bravo em Ter Jan 25, 2011 11:55 am

Graças a Deus, minha única escravatura é o esclarecimento... Iniciava uma análise dum artigo de Blanco Valdés -que postarei no seu lugar quando esteja bem concluído- e não tinha pensado mais que escrever o que depois ficou em epígrafes.

Achei que a declaração era trivial ou indeterminada. De onde pode surgir a arte, e qualquer actividade humana, se não? O que é "a vida"? Mais relevante seria saber que é o específico da arte.

Perguntava se "surgir de" implica dependência, destino. Como parece ("inútil pretender o contrário").

E quanto a ti Gilgamesh, enche o teu ventre
Vive alegre dia e noite,
faz festa cada dia,
dança e canta noite e dia,
que tuas vestes sejam imaculadas,
lava-te a cabeça, banha-te,
atende o menino que te toma pela mão,
deleita tua mulher, abraçada contra ti.
Esta é a única perspectiva da humanidade.
Não, a autora não fala da inutilidade da poesia, mas da inutilidade em geral.
Bom, eu vinha de escrever (e ser citado):
parece que a autora se compraz na celebração da inutilidade da poesia, ou que faz poesia da inutilidade.
O que não entendo é como se pode escrever isto:
De como a arte surge da vida e como é inútil pretender o contrário
e isto:
Que o seu amor é grande como a grande poesia, a mais inútil de todas as cousas.
Para reconhecer com todas as veras a inutilidade dessa pretensão é necessário tê-la assumido. Não seria um destino trágico?

"Útil, utilidade" são palavras muito maltratadas. Consideram-se prosaicas, rotineiras, grises, instrumentais. Mal se apercebe sua humildade. Enfim, acho que sempre há que perguntar útil para que?


Canção do Harpista

Quem nunca comeu seu pão com lágrimas
Quem nunca passou noites aflito
Sentado no seu leito em pranto
Não vos conhece, Poderes Celestes.

Vós nos lançais na roda da vida
Vós deixais o pobre tornar-se culpado
Depois, o abandonais ao sofrimento
Pois toda culpa se vinga nesta terra.

Lied des Harfners

Wer nie sei Brot mit Tränen ass,
Wer nie die kummervollen Nächte
Auf seinem Bette weinend sass,
Der kennt euch nicht, ihr himmlischen Mächte!

Ihr führt ins Leben uns hinein,
Ihr lasst den Armen schuldig werden,
Dann überlasst ihr ihn der Pein:
Denn alle Schuld rächt sich auf Erden.
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Re: “Só poesia”

Mensagem  Pedro Bravo em Ter Jan 25, 2011 12:23 pm

Olhos verdes são traidores,

os azuis são mentireiros,

os negros e acastanhados
são firmes e verdadeiros [...]

(Pop., e politicamente incorreto no séc. XXI?)
O ano que se editou a versão de "x? e Xavier" (não lembro o nome feminino), lá a começos dos 70, conheci, ou mais bem vi, o casal nas festas de Rivadeu. Estavam a falar com minha mãe e ao reclamar que me achegasse só o fiz até que pudessem perceber meus olhos azuis. Eu pensava: essa canção fizeram-na gentes de olhos marrões; eu tenho olhos azuis e não sou mentireiro; portanto, as mulheres de olhos verdes são leais... Bom, a inferência era outra. Em qualquer caso, ainda que era castelhano falante, considerava uma maravilha que se pudessem editar discos em galego. O galego nunca foi para mim uma língua estranha.

Quando sai de Soutelo
Os meus olhos eram fontes.
Adeus, montes de Soutelo,
Adeus, Soutelo de Montes.


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Re: “Só poesia”

Mensagem  Isabel em Ter Jan 25, 2011 2:41 pm



Escreve Pedro Bravo: «Perguntava se "surgir de" implica dependência, destino. Como parece ("inútil pretender o contrário").»

Ah, agora percebo. Mas não, o facto de ser impossível criar vida através da arte não quer dizer que o destino da arte seja ser criado da vida. Isso equivale a dizer que o destino da Terra é dar voltas ao redor do Sol, somente porque é um facto que a Terra dá voltas ao redor do Sol e o contrário não é possível...

Eu fiz um jogo de palavras com a palavra "inútil" e com o sentido do poema, cujo contexto conheço bastante bem, que por sua vez também joga com a mesma palavra, mas noutro sentido. Seria complicado de explicar. Parvadas minhas.


«Para reconhecer com todas as veras a inutilidade dessa pretensão é necessário tê-la assumido. Não seria um destino trágico?»

Pode ser... não acredito no destino. Mas o que quer que seja, trágico é...


Perdi meus fantásticos castelos
Como névoa distante que se esfuma...
Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los:
Quebrei as minhas lanças uma a uma!

Perdi minhas galeras entre os gelos
Que se afundaram sobre um mar de bruma...
- Tantos escolhos! Quem podia vê-los? –
Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma!

Perdi a minha taça, o meu anel,
A minha cota de aço, o meu corcel,
Perdi meu elmo de ouro e pedrarias...

Sobem-me aos lábios súplicas estranhas...
Sobre o meu coração pesam montanhas...
Olho assombrada as minhas mãos vazias...

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"
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Re: “Só poesia”

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