O que é o proceso de hibridação da língua na Galiza

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O que é o proceso de hibridação da língua na Galiza

Mensagem  Nambuangongo em Sab Abr 23, 2011 12:27 pm

(Resposta à dúvida dum comentarista dum jornal digital)

Mais ou menos todos compreendemos que a nossa língua sofre na Galiza um nefasto processo de substituição (avô > abuelo). Um processo iniciado nos séculos escuros, destruindo o nosso léxico culto que se foi substituindo polo castelhano e apenas se conservou vivo em Portugal e nas suas colônias, e depois o léxico mais coloquial e popular. A destruição deste último é relativamente recente, e a principal causa foi a alfabetização em castelhano, e nas últimas décadas a TV espanhola.

Além dessas palavras genuinamente galegas que foram substituídas por outras castelhanas, existem outros processos menos conhecidos, e ainda mais graves, pois são mais subtis e menos detetáveis e mais difíceis de corrigir, são os processos de hibridação, nos quais paradoxalmente a RAG/ILG é o principal promotor, que «legalizam» e «naturalizam» um grave problema de destruição da língua.

1 - Processo espontâneo de hibridação no léxico:

Hibridação por adaptação do castelhano:

carretera > carreteira (estrada)
rodaja > rodaxa (rodela, fatia)
conllevar > conlevar (implicar)
alejar > alonxar (afastar)

Sustituição de significado total:

largo (dimensão transversal) > longo (dimensão longitudinal) [o largo original agora é ancho]
roxo (roxado no fogo) > vermelho (outra cor)
aportar (chegar a porto) > aportar (contribuir, achegar)
contestar (opor-se) > responder (uma pergunta)

Substituição de significado parcial (degrau da palavra galega):

cheiro (odor) > cheiro (fedor) ≠ olor
escada (escadaria) > escada (escada de mão) ≠ escaleira
cobertor (colcha) > cobertor (colcha velha) ≠ manta
vassoira (de varrer) > vassoira (de giestas) ≠ escoba


2 - Processo premeditado (RAG-ILG) de hibridação no léxico:



Neologismos adquiridos diretamente em castelhano:


té (cas.) > té (gal.), e não chá
pavo (cas.) > pavo (gal.) e não peru
disco duro (cas.) > disco duro (gal.) e não disco rígido
ordenador (cas.) > ordenador (gal.) e não computador

Neologismos galeguizados desde o castelhano:

grapa > grampa, e não agrafo
bujía > buxía, e não vela de ignição
comillas > comiñas, e não aspas
jabalina > xavalina, e não dardo

Neologismos incorporando um significado castelhano desnecessário:

cumbre > cúmio (cimeira)
huelga > folga (greve)
cuenca hidrográfica > cunca hidrográfica (bacia hidrográfica)
bodega do navio > bodega/adega do navio (porão)

[Atualmente há pessoas no isolacionismo cientes deste problema e que defendem com fervor os antes «perigosos lusismos», mas depois de 30 anos consolidando esse léxico castelhanizado...]


3 - Um processo de hibridação fonética:


Perda da prosódia.

A característica de abrirmos ou fecharmos de forma exagerada as vogais da sílaba tónica e fecharmos o resto está a mudar para uma prosódia castelhana onde a sílaba tónica só é mais forte e não há variações de apertura.

«O pequeno e a pequena tinham medo», cada vez se diz menos «u piKÊnu i a piKÊna TInhâ~ MÊdu (ou MÉdu)» e se diz com o ritmo castelhano, e sem fechar as sílabas átonas.


Perda da nasalidade.

Além das particularidades dialetais do galego oriental (ditongos nasais e vogais nasais finais), em todas as variantes da Galiza os M e N a final de sílaba são um N nasal, e essa nasalidade «tingue» a vogal que a precede se for fechada. Por exemplo, o A de «ambiente» é diferente em galego e em castelhano. A incorreta abertura da vogal ou a pronuncia desses N nasais como M ou N, «mata» este tipo de nasalidade.

É já um clássico a diferença fonética em galego de «Em Ares» / «Henares» que em castelhano não existe, sendo pronunciadas de forma idêntica.



Perda da apertura das vogais, ou confusão da mesma.

Cada vez é mais neutra a distinção ô/ó, ê/é, chegando a desaparecer completamente já em muitas pessoas a do â/á. Se pedimos aos galegos de digam «Europa», só uma minoria dirá «Európa» ou «Eurôpa», ficando a maioria com a pronúncia castelhana que constantemente ouvem em castelhano ou em castrapo TVGalho. Constante interferência destas pronúncias alheias com vocais neutras, e na TVG até incorretas, também produz que quando se querem pronunciar «à galega» as palavras, muitas vezes o falante já não sabe se abrir ou fechar.

Outro exemplo é que se está a perder a alternância da abertura na flexão verbal (cômo, cómes, cóme,..) e cada ve é mais frequente ouvir «Éu cómo móito».



Perda de alternâncias fonéticas ainda vivas na Galiza, mas não existentes em castelhano.

Como o B/V, S/Z, X/J, etc. que longe de ser recuperadas, prestigiadas, ou incorporadas na ortopeia (pronuncia culta), são negadas e «corriXidas». São fenómenos perigosos para os «argumentos filolóXicos», portanto em processo de extinção.

O caso mais espetacular é o extermínio do sesseio, maioritário quanto a dimensão territorial e quanto a dimensão demográfica.


Constante degradação fonética cara uma harmonização cara o castelhano.

A influência da fonética castelhana introduz modificações fonéticas que logo se tornam morfológicas, e longe se serem evitadas, são «legalizadas»

Às já clássicas -çom > -ciom, -som > -siom , -tom > -tiom, -xom > -xiom, nunca foram vistas como castelhanismos pelo isolacionismo. Sim viram e corrigiram os -ais > -ales, e nos últimos tempos até introduziram alguma «excepzón» e timidamente agiram com os -ble, -icia, -encia, -ancia,... O caso dos «animales» recuperados para «animais» indica que estes processos SIM SÃO RECUPERÁVEIS quando há vontade desde a «filoloxia». Mas essa hoje permite e contribui para essa degradação.

Depois, evidentemente há degradações fonéticas espontâneas: igualdade > igualdá, falado > falao, parede > paré,... influenciadas pelo castelhano. Nada tem a ver o correcto > correto com o correcto > correzto.


Castelhanização fonética na sílaba tónica


limite > límite
magia > mágia
regime > réxime

E já total nos neologismos ou cultismos recuperados pelas instituições linguísticas autonómicas: policía (polícia), democrácia (democracia), neón (néon), cerébro (cérebro), ...



[Os paleofalantes (falantes com o galego de língua materna) consolidados apenas perdem estas características, mas há que ter em conta que os meninos com a nossa língua como L1 materna, são escolarizados, e isso produz graves interferências, e não estou a falar do contacto com companheiros castelhanofalantes, senão do «bem que ensinam galego» essa imensa quantidade de inúteis que dizem ser professores.]


4 - Processo de hibridação morfo-sintáctica:

Na construção dos sintagmas:


«Vou comentar» > «Vou a comentar»
«Comento isto ao Filipe» > «Comento-lhe isto ao Filipe»
«Daqui não te escuto» > «Desde aqui não te escuto»
«Escrevo para te convencer» > «Escrevo para convencer-te»

Nos usos verbais:

«Se a Galiza fosse independente,...» > «Se a Galiza fora independente,..»
«Nós para sermos normais,...» > «Nós para ser normais,...»
«No caso de serem responsáveis,...» > «Em caso de que sejam responsáveis,...»
«Bebeu todas as cervejas» > «Bebeu-se todas as cervejas»

No significado das construções:

Por cierto > Por certo («Aliás» ou «por verdadeiro»?)
Sin embargo > Sem embargo («porém» ou «não embargado»?)
Más bien > Mais bem («antes» ou «mais bondade»?)

Na estrutura das construções:

«És o Filipe? Sim, sou» > «És o Filipe? Sim.»
«Dos meus irmãos sou o mais velho» > «Dos meus irmãos sou o maior»
«Aos sábados vou de farra» > «Os sábados vou de farra»

[Para mim isto é hibridação: léxico galego + estrutura castelhana. Não substiuição linguística. Uma hibridação já tão enraizada nos falantes L1 (galego espontâneo) como o mítico «bueno».]

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