Guimarães Rosa - escritor galego

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Guimarães Rosa - escritor galego

Mensagem  Isabel em Qui Mar 31, 2011 3:01 pm

«Sopra sempre o guia no seu corno, porém, e os outros insistem no canto arrastado, tão plangente, que os bois vão cadenciando por ele o tropel.
- A chuva está aí está caindo, Raymundão. Mas, vigia aquele garrotão preto, que vai ali, babando em cima da casa dos outros. O Calundu era importante assim?
- Vou contar. Espera, vamos fazer uma mamparra: vamos encostar os cavalos, e trancar o gado, para ele só dar trabalho da banda do povo de lá e a gente poder conversar com sossego... Assim. Oh, diabo, você é mestre, e eu querendo ensinar você a fazer trecho...
- Que história foi? O Calundu matou alguém?
- Depois. O que eu vou contar foi no Retiro... Eu tinha ido lá, buscar uma vaca fronteira, da filha de seu Major. A vaquinha tinha parido na beirada da lagoa, e jacaré comeu a cria. Por isso ela estava emprerreada, tinha virado bicho-do-mato, correndo atrás de qualquer barulhinho, arrementendo à toa. Me deu tanto tarbalho, que eu tive de dormir lá, no rancho de perto dos coqueiros... De noite, saiu uma lua rodoleira, que aluminava até passeio de pulga no chão. Minha cachorra paqueira, que não gostava de parar sem o que fazer, ficou vagabundeando por si, e pegou a acuar. Algum tatu rabo-mole, por aí... -eu pensei. Fui ver... Oi, segura, siô!
Um boizão fumaça bufou na orelha do poldro de Badu, que refugou - arranco para trás, para a esquerda e para baixo, entortando o pescoço, rapidíssimo. Badu balanceou, bateu mão na giba da jereba, e esteve pendente meio segundo, fazendo força para não ir sela abaixo, sob os cascos em disparada dos bois. Mas foi ao outro lado, em pulo seguro, e voltou ao assento, volteando com a ligeireza de um atamã do Ural.
- Foi nada. Conta a história, Raymundão.
- Pois então, quando fui espiar o que a minha cachorra Zeferina estava estranhando...
- Oh guês! Isso é nome de cachorro?
- Foi por vingança que eu pus, quando minha mulher Zeferina me largou... Mas, a' pois, não imagina o que eu vi! Dei mesmo numa baixada de pasto, e afundei quase no meio das vacas. Já disse que estava lindeza de claridade de noite... E de repente eu vi que o gado estava cheio de ideia, começando um manejo esquisito. Mandei a cachorrinha calar a boca, e então pude apreciar direito: as vacas, desinquietas, estavam se ajuntando, se amontoando num bolo, empurrando os bezerros para o meio, apertando, todas encalcando, de modo que aquilo tudo, espremido, parecia uma rodeira grande, rodando e ficando cada vez mais pequena, sem parar de rodar...
- E daí?
- Espera, olha a chuva descendo o morro. Eh, água do céu para cheirar gostoso, cheiro de novidade!... É da fina... Mas, então, o Calundu, que era o garrote delas, ainda parecia ser mais graúdo do que era mesmo, rodeando as vacas, meio dando as costas para a manada, assim de cabeça em pé! E aí eu ouvi um miado longe, e me alembrei daquela onça preta que estava salteando estrago no gado de seu Quilitano, nas Lages, e no Saco-da-Grota. Onção de todo o tamanho...
- Ei, gente, olha o pé-d'água!
Chegava a chuva, branquejante, farfalhando rumorosa, vinda de trás e não de cima, de carreira. Alcançou a boiada, enrolando-a toda em bruma e continuando corrida além. Os vultos dos bois pareciam crescer no nevoeiro, virando sombras esguias, de reptis desdebuxados, informes, com o esguicho das bátegas espirrando dos costados. O pisoteio teve um tom mole, de corrida no bagaço. E houve mugidos. Mas, roufenho, o berrante trombeteou de novo, mais forte, na frente.
- Canta, gente!
E, aí, soltaram a chuva de verdade: chuva pesada, despejada, um vasto vapor opaco. Era como se a gente passasse por debaixo de cachoeira. E desenxergaram-se, de todo, os bois. Mas os vaqueiros cantavam juntos:

Chove, chuva, choverá
Santa Clara a clarear
Santa Justa há-de justar
Santo Antônio manda o Sol
P'ra enxugar o meu lençol...

- Oh, diabo, custou que melhorou. A gente nem estava podendo tomar fôlego, em baixo desse dilúvio...
- Mas, e depois, a onça, Raymundão?»



João Guimarães Rosa em «O burrinho pedrês» de Sagarana.
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Re: Guimarães Rosa - escritor galego

Mensagem  cdurão em Qui Mar 31, 2011 11:30 pm

belo galego, não?: em "A galecidade na obra de Guimarães Rosa" tratou o tema V. Paz-Andrade, Eds. do Castro, 1978, recolhido em parte em "A fonte galega de Guimarães Rosa", Vol II, pp.219-233
(na p. 104 diz: “unha lingua que aínda se fala hoxe no grande sertao, como se fala na Galiza”)

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Re: Guimarães Rosa - escritor galego

Mensagem  Isabel em Sex Abr 01, 2011 2:13 am

Very Happy Que bom! Obrigada, Carlos. Deixo outro paragrafinho do mesmo conto:


«- Mas, conta o resto...
- O resto! O resto foi que nós levamos mais de uma semana, para poder ajuntar as reses outra vez... Tinham espandongado por ali a fora, e a gente foi achar uns atolados no brejão, outros de pescoço quebrado, caídos no fundo das pirambeiras, e muitos perdidos no meio do mato, sem nem saber por onde dar volta para acharem o caminho de casa... Outros tinham rolado rio abaixo, para piranha comer. E, os que a gente pôde arrebanhar de novo, deram, mal e mal, uma boiadinha chocha, assim de brinquedo, e numa petição-de-miséria, que a gente até tinha pena, e dava vontade de se botar a bênção neles e soltar todos no sem-dono! São, são, não tinha quase nenhum... Eram só bois náfegos, vacas descadeiradas, bezerros com torcedura de munheca ou canela partida, garrotes com quebra de palheta ou de anca, o diabo! E muitos desmochados ou de chifre escardado, descascado fundo, dando sangue no sabugo, de tanto bater testada em árvore... Por de longe que a gente olhasse, mesmo o que estava melhorzinho não passava sem ter muito esfolado e muita peladura no corpo... Um prejuizão!...»
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Re: Guimarães Rosa - escritor galego

Mensagem  Isabel em Qua Maio 25, 2011 4:13 pm


«Pelo rego desciam bolas de lã sulfurina: eram os patinhos novos, que decerto tinham matado o tempo, dentro dos ovos, estudando a teoria da natação. E, no pátio, um turbilhão de asas e de bicos revoluteava e se embaralhava, rodeando a preta, que jogava os último punhado sde milho, r-r-rolando e estalando com a língua:
- Prrr-tic-tic-tic!...
Um gordo galo pedrês, parecendo pintado de fresco com desenhos de labirinto de almanaque, sultaneava, dirigindo preferências a uma galinha ainda mais carijó e mais gorda, vestida de fichas de impressão digital. E veio de lá, ciumento e briguento, outro galo, esse branco, com chanfraduras e pontas na crista caída de lado. Barulho. E então a galinha choca, com cloqueios e passos graves, chamou os pintinhos para longe dali.
E havia suras, transilvânias, nanicas, topetudas, calçudas; e guinés convexas, aperuadas; e peruas acucadas; e um peru bronze-e-brasa, de brincos, carúnculas, boné e guardanapo, todo paramentado de framboesas; e patos, esparramados, marrecos mascotes e pombas de casa.
Mas, de supetão, uma espécie de frango esquisito, meio carijó, meio marrom, pulou no chão do tereiro e correu atrás da garnisé branquinha, que, espaventada, fugiu. O galo pedrês investiu, de porrete. Empavesado e batendo o monco, o peru grugulejou. A galinha choca saltou à frente das suas treze familiazinhas. E, aí, por causa do bico adunco, da extrema elegância e do exagero das garras, notei qu eo tal frango era mesmo um gavião. Não fugiu: deitou-se de costas, apoiado na cauda dobrada, e estendeu as patas, em guarda, grasnando ameaças com muitos erres. Para assustá-lo, o galo separou as penas do pescoço das do corpo, fazendo uma garbosa gola; avançou e saltou, como um combatente malaio, e lascou duas cacetadas, de sanco e esporão. Aí o gavião fez mais barulho, com o que o galo retrocedeu. E o gavião aproveitou a folga para voar para a cerca, enquanto o peru grugulejava outra vez, com vários engasgos.
-Nunca pensei que um gavião pudesse ser tão covarde e idiota... -eu disse.
Maria Irma riu.
-Mas este não é gavião do campo! É manso. É dos meninos do Norberto... Vem aqui no galinheiro, só porque gosta de confusão e algazarra. Nem come pinto, corre de qualquer galinha...
-Claro! Gavião civilizado...
-U'lalá... Perdeu duas penas...
O sorriso de Maria Irma era quase irônico. Não me zanguei, mas também não gostei.»


Do conto «Minha gente» incluído no Sagarana, Ed. Nova Fronteira, 1995, de João Guimarães Rosa.
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