A sociedade do espectáculo

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A sociedade do espectáculo

Mensagem  mceleiro em Seg Mar 21, 2011 3:38 pm

Guy Debord em seu antifilme A Sociedade do Espetáculo (1973) demonstra que a Revolução pode sim trazer a liberdade. Os Situacionistas, ou seja, aqueles que criam situações que propiciam o avanço e a materialização dos conceitos libertários conseguiriam pela proliferação de sua prática neutralizar o controle e o efeito nocivo que a televisão, o cinema e os gandes meios de comunicação exercem sobre as massas. O fim dessa repressão psicológica e física sobre o povo representaria a realização da arte, da poesia, da utopia.

Este filme é uma adaptação cinematográfica do livro de igual nome, La société du spectacle.
http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/socespetaculo.pdf

O pensamento que nele ser recolhe foi um dos detonadores do Maio do 68. De facto, a revolta começou após dos situacionistas fazerem milhares de cópias do texto "A miséria do meio estudantil", e concretamente no momento em que os situacionistas deixaram uma cópia em cada butaca do auditório magno da Sorbona num ato acadêmico que ia estar presidido por Charles de Gaulle, que foi impedido polos estudantes «incendiados» por aquele texto, ainda hoje tão vigente.

O situacionismo, ou se se quer neo-situacionismo, está a ser a vanguarda da revolução islandesa, uma revolução que por agora está trinfando e que o sistema não sabe como combater, a diferença da grega, por exemplo.

Por isso é necessário lembrar este livro imprescindível, e talvez o ensaio político, filosófico e econômico mais brilhante do século XX.

Aqui vou deixar o filme (ou antifilme), uma colagem de imagens pirateadas para o que tão só a música e a composição foram criadas, também muito interessante:










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Re: A sociedade do espectáculo

Mensagem  Esquerdolas em Seg Mar 21, 2011 7:27 pm

Não concordo com algumas coisas. Primeiro reduz-se o espectáculo à tirania dos meios audiovisuais, depois considera-se que uma teoria tem capacidade de detonar revoluções, e que foi a situacionista a mais influente no maio de 68, e depois acha-se que na Islândia há uma revolução e tem influência situacionista ou neo-situacionista(?).

Por exemplo, um artigo onde se esclarece esse conceito de imagem na teoria situacionista:
http://emilianoaquino.blogspot.com/2010/01/as-imagens-do-mundo-das-imagens-o.html

Mudando agora de assunto. Há um filme desviado, muito interessante, que se baseia num texto do Guy Debord, que pode ser encontrado no mesmo blog que já linkei, http://emilianoaquino.blogspot.com/2007/11/o-planeta-doente.html . O desvio consiste em meter legendas num filme japonês já existente. As legendas estão em francês, e seria muito fácil traduzi-las visto que se baseiam no texto do Debord que já está traduzido. O problema é que não consigo colar as legendas em português por cima das legendas em francês. Consegui descarregar da net o filme original mas vinha com legenda em espanhol. Bom, se alguém tiver sugestões aceito. Em todo o caso indico aqui o link para o filme desviado e para o início de outro muito interessante que está dividido em partes no youtube, tudo em francês:

http://www.youtube.com/watch?v=CO77gH6hg1c este é o que se baseia no texto do debord

o outro:
http://www.youtube.com/watch?v=om-S5_JeNn0

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Re: A sociedade do espectáculo

Mensagem  mceleiro em Ter Mar 22, 2011 4:23 am

1) O espetáculo não são só os meios audiovisuais, é a «realidade» separada da realidade real que nos apresenta o sistema. Pondo outro exemplo cinematográfico, a Matrix. E existe a Matrix capitalista, mas também a Matrix estalinista, a Matrix religiosa, etc. A Matrix capitalista é a mais perfeita de todas, consegue fazer pensar aos mais escravos que são livres, aos mais condicionados que constantemente elegem, aos mais parvos que são muito inteligentes,...

Ler o ver La société du spectacle requer o seu tempo, e são conceitos muito densos, muito pensamento concentrado, e pode ser até chato e cansativo compreender o que lá se diz, mas se não se compreendem os conceitos nessa crítica ao espetáculo, nada poderemos discutir.

2) O situacionismo não é «uma teoria» ao estilo dos marxistas ou anarquistas, senão um pensamento crítico com a sua correspondente prática radical no quotidiano, que nasce de analisar profundamente o marxismo e o anarquismo, os porquês dos seus erros, das suas não-revoluções, ou pseudo-revoluções como a soviética que deram lugar a capitalismo de estado, muito longe do socialismo, e por vezes, até próximas ao fascismo. O situacionismo não é uma teoria à que aderir, senão uma chamada a construir aquilo anelado nas sociedades utópicas pós-revolucionárias sem aguardar a fazer tal revolução, é dizer, aqui e agora, pois é assim como realmente se faz a revolução. E não se precisam líderes, nem partidos de massas, nem exércitos vermelhos,... por isso doeu e dói tanto o situacionismo nos marxistas.

Definição de situacionismo:

(Texto cortado e colado da rede, não é exatamente a definição que faria eu)

Situacionismo é um movimento europeu de crítica social, cultural e política que reune poetas, arquitetos, cineastas, artistas plásticos e outros profissionais. Seu início data de julho de 1957, com a fundação da Internacional Situacionista, em Cosio d'Aroscia, Itália. O grupo se define como uma "vanguarda artística e política", apoiada em teorias críticas à sociedade de consumo e à cultura mercantilizada. A idéia de "situacionismo", segundo eles, se relaciona à crença de que os indivíduos devem construir as situações de sua vida no cotidiano, cada um explorando seu potencial de modo a romper com a alienação reinante e obter prazer próprio. Do ponto de vista da reflexão, as principais fontes dos situacionistas são utopistas como Charles Fourier e Saint-Simon, hegelianos como os filósofos alemães Ludwig Feuerbach e o jovem Karl Marx. O clima intelectual e político francês dos anos 1950 e 1960 alimenta o movimento, que, por sua vez, auxilia a redefinir os contornos da época. A tradução francesa de História e Consciência de Classe, de Georg Lukács, a edição dos dois primeiros volumes da Crítica da Vida Cotidiana, de Henri Lefebvre, as reflexões dos pensadores da Escola de Frankfurt, e as revistas Socialismo e Barbárie e Argumentos, entre outros, marcam a reflexão social, cultural e política do momento, apontando para os efeitos perversos do capitalismo avançado, bem como para a necessidade de alterar a ordem social pela reinvenção da vida cotidiana. A utopia maior que norteia o situacionismo é a projeção de uma sociedade comunista próxima aos ideais anarquistas, capaz de ser alcançada pela recusa radical do autoritarismo de Estado e da burocracia.

Às reflexões teóricas os situacionistas associam uma série de intervenções - distribuição de panfletos, declarações, envio de telegramas etc. - com o objetivo de marcar com clareza suas posições sociais, culturais e políticas. No âmbito da atuação política, o grupo se engaja em formas de apoio aos movimentos de contestação que ocorrem na época. Apóiam as revoltas das comunidades negras de Los Angeles, Estados Unidos, em 1965; as iniciativas operárias, fora dos sindicatos e partidos; as atividades de autogestão e os conselhos operários criados na Espanha e Argélia; o movimento estudantil e os acontecimentos de maio de 1968, suscitados com a contribuição do grupo. Do ponto de vista artístico, as principais fontes do movimento são o dadaísmo e o surrealismo - sobretudo pela conexão por eles defendida entre arte e vida - e o letrismo1 do poeta romeno Isidore Isou e do pintor francês Gabriel Pomerand. Frutos de dissidência no interior do letrismo, A Internacional Letrista e o boletim Potlach, 1954/1957, criados por Michèle Bernstein, Mohamed Dahou, Guy Debord, Gil Wolman, entre outros, desenham um primeiro esboço das teses situacionistas. A intenção estratégica de Potlach, segundo Debord, um dos expoentes do movimento, é promover a "reunificação da criação cultural de vanguarda e da crítica revolucionária da sociedade". E a Internacional Situacionista, afirma ele, em 1985, "é criada sobre essa mesma base". Articulações entre arte e vida, arte e política, arte e cidade, são alguns dos eixos do letrismo internacional retomados pelo situacionismo. Trata-se de ver a poesia, "para lá da estética", nos rostos dos homens e na forma das cidades, anuncia o nº 5 do Potlach, 1954. "A nova beleza", dizem eles, "será de SITUAÇÃO, quer dizer, provisória e vivida." A idéia de realizar intervenções no ambiente, cara aos situacionistas, já está posta. Práticas como a "deriva", a "psicogeografia" e o "desvio" defendem as perambulações ao acaso pela cidade e estimulam as reinterpretações do espaço com base na experiência vivida (ver o Guia Prático para o Desvio, 1956, de Wolman e Debord). As práticas e intervenções no espaço urbano têm como fonte a crítica da vida cotidiana; por isso o urbanismo e a arquitetura constituem dimensões fundamentais para letristas e situacionistas.

A abertura do Letrismo Internacional a outros grupos cria as condições para a fundação da Internacional Situacionista. A amizade de Debord com Asger Oluf Jorn estreita os laços com o Grupo CoBrA - sobretudo com Constant e Jorn - e com o movimento por uma Bauhaus imaginista, fundado em 1955 por Jorn e pelo pintor italiano Pinot-Gallizio. A defesa da livre expressão e do gesto espontâneo associada às convicções políticas faz do Grupo CoBrA um aliado primeiro do situacionismo. A aproximação com o grupo se dá em 1949, principalmente pelas teses sobre "o desejo, o desconhecido, a liberdade e a revolução" defendidas por Constant na quarta edição da revista CoBrA, que se tornam centrais para o movimento situacionista. São também evidentes os interesses dos letristas internacionais pela reflexão sobre o urbanismo empreendida pelo movimento de Jorn e Pinot-Gallizio, que partem de uma crítica à funcionalidade excessiva praticada pela Bauhaus de Gropius.

Não por acaso a plataforma que marca o início das atividades da Internacional Situacionista intitula-se "Para um urbanismo unitário". A revista Internacional Situacionista, 1958/1969, apresenta as formulações teóricas do grupo e acompanha as atividades de seus membros. Do conjunto, apreendem-se duas críticas fundamentais. Uma que diz respeito à vida cotidiana e à sociedade do espetáculo mercantil. Trata-se de libertar a vida do cotidiano e separar o tempo da organização do trabalho. Uma segunda crítica incide sobre a cultura como "mercadoria ideal do capitalismo avançado". A idéia da servidão posta pela "sociedade do lazer" encontra-se esboçada na obra maior da teoria situacionista, A Sociedade do Espetáculo, 1967, de Debord, a liderança mais importante do movimento. Além dessa obra, que alcança grande repercussão em 1968, Debord é autor de diversos artigos e livros, e responsável por alguns filmes, entre os quais Hurlement en Faveur de Sade [Grito a Favor de Sade], 1952. Realiza também com Bernstein e Jorn exposições de fotografias, como a de Paris, em 1961.

Após um período marcado pela criação de diferentes seções do situacionismo em diversos países da Europa (Grã-Bretanha, Alemanha, países nórdicos etc.), de 1958 a 1969, e uma espécie de auge do movimento alcançado por ocasião dos acontecimentos de maio de 1968, Debord anuncia oficialmente, em abril de 1972, a dissolução do situacionismo. Muitos de seus membros continuam a participar dos movimentos de esquerda nos anos 1970. No Brasil, a editora Conrad Livros, criada na década de 1990, em São Paulo, tem sido a grande responsável pela edição das obras de Debord e dos situacionistas e pelo ressurgimento do interesse por essas idéias entre artistas brasileiros.

Nota
1 "[...] movimento literário e artístico idealista, fundado em Bucareste em meados dos anos 40 [...]. In: DEMPSEY, Amy. Estilos, escolas & movimentos: guia enciclopédico da arte moderna. São Paulo: Cosac & Naify, 2003. p.192.

3) Eu não disse que o situacionismo foi o mais influente no Maio do 68, disse que foi o detonador. Essa revolta ficou comandada por movimentos comunistas clássicos e individualistas que se autodenominavam anarquistas, entre uma maioria de estudantes filhos da burguesia que aderiram «por moda», mas sem nenhuma formação teórica nem prática, nem nenhuma necessidade revolucionária, pois o estudantado apenas tem relação com as forças de produção. Quem sim a tinham eram os operários que aderiram à revolta, daí que foi contra eles toda a repressão.

É interessante ler "A miséria do meio estudantil", mas muito mais interessante é a reedição desse texto nos 80 pelo Guy Debord, quem o deixa intacto, pois era totalmente vigorante, como ainda o segue sendo em 2011 (A geração à rasca sentirá-se totalmente identificada), mas com um prólogo crítico onde comenta lucidamente por que fracassou o maio do 68.

4) Com total certeza, na Islândia há um grupo organizado de pessoas «construindo situações», e não à toa, senão com o situacionismo não só como referente, senão como estrutura fundamental, tanto teórica como prática.

E «um grupo» não são «todos os islandeses», assim que também não podemos dizer que há uma revolução situacionista nessa ilha. Ora bem, esse grupo de situacionistas estão sendo a vanguarda, desde a sociedade civil e bem diante de qualquer partido político ou sindicato.

E não falamos de conquistas simbólicas, senão de factos muito importantes, como são a oposição à entrada na UE, nenhuma relação com o FMI, não pagar dívida externa, busca e captura de banqueiros e empresários corrutos, converter-se no país do mundo que mais dinheiro destina a educação e cultura, presidenta lésbica com total normalidade, etc

5) Eu não concordo com o conceito neo-situacionismo, simplesmente é utilizado por algumas pessoas. O situacionismo desde os seus começos a finais dos anos 40 (realmente vem do dadaísmo e do construtivismo soviético, nasceu com o século XX) até o dia de hoje sempre esteve vivo e ativo, portanto não necessita remakes nem redefinições. O situacionismo dos anos 40 é uma nuvem difusa de pessoas isoladas, que se organizam e debatem nos anos 50, se tornam ativistas revolucionários nos 60, primeiro no mundo artístico, depois no político, que nos 70 se radicaliza e até se torna terrorista, nos 80 é aparentemente derrotado, e nos 90 até a atualidade descobre o ciberativismo e a internet vai ser fundamental para um movimento que parte do funcionamento em rede.

O movimento punk, por exemplo, nasceu como corrente situacionista, mas o sistema mercantilizou-a.

E outro dia podemos falar do situacionismo na arquitetura, por exemplo, um tema muito interessante.
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Re: A sociedade do espectáculo

Mensagem  Esquerdolas em Ter Mar 22, 2011 2:04 pm

Li por alto e discordo de várias coisas mas como não estou a pensar desenvolver a minha crítica, vou ficar por aqui.

Vou só identificar alguns pontos de discordância.

A teoria situacionista é uma teoria sim, à maneira de Marx, e que eles e Marx opunham ao conceito de ideologia.

A teoria situacionista analisa o capitalismo espectacular como a fase em que a lógica do trabalho assalariado coloniza a vida quotidiana e avançam uma concepção de revolução que passa pela transformação radical da vida quotidiana, que seria um sector subdesenvolvido no capitalismo. Mas isso não quer dizer que os situacionistas advoguem um reformismo da vida quotidiana, um radicalismo no estilo de vida, uma mudança imediata dentro do capitalismo. Advogam uma revolução e pensam que a realização da arte só é possível abolindo radicalmente esta sociedade. Em vários lugares os situacionistas criticaram essa posição que lhe atribuis de reformismo da vida quotidiana. mesmo o Vaneigem faz isso e alerta contra essa recuperação em Terrorismo ou Revolução, por exemplo. Eles defendiam os conselhos operários, e apostaram bastante na "revolução" portuguesa de 74-75. Ver por exemplo o livro do Jaime Semprun. Estás sempre a falar de marxistas isto, marxistas aquilo, mas a verdade é que a tua noção de marxismo é estreita e não tens em conta que as suas principais influências foram Karl Marx, Karl Korsch, Lukacs, Henri Lefebvre, todos marxistas, e situam-se na linha dos comunistas de conselhos na sua recusa do partido revolucionário, que pelo contrário não recusam, tal como os situacionistas, a necessidade do uso da violência proletária, ao contrário do que tu pensas erroneamente.


Não entendi bem esse conceito de matrix. O conceito de espectáculo não tem nada a ver com manipulação ou realidade virtual, está ligado a concepções marxistas, como se mostra no texto que linkei e que se pode ver também no livro do Anselm Jappe. Online só se encontra a terceira parte: http://guy-debord.blogspot.com/2009/06/o-passado-e-o-presente-da-teoria-de.html Em inglês pode encontrar-se a primeira onde se define o conceito de espectáculo: http://libcom.org/files/Imbeciles%20Guide%20to%20the%20Spectacle1.pdf

Aproveito para indicar mais um texto que, creio eu, ajuda a entender o conceito:
http://silenciodospoetas.wordpress.com/2009/04/18/o-espectaculo-e-a-sua-critica/



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Re: A sociedade do espectáculo

Mensagem  Esquerdolas em Ter Mar 22, 2011 2:13 pm

O espetáculo não são só os meios audiovisuais, é a «realidade» separada da realidade real que nos apresenta o sistema.

O sistema não apresenta coisa nenhuma, a sociedade capitalista manifesta-se duma dada maneira devido à sua estrutura, analisada por Marx. A análise dos situacionistas é uma extensão dessa análise marxista. Para entender a Sociedade do Espectáculo é preciso entender Marx e Lukacs. Só assim os conceitos que lá estão expostos perdem o mistério e deixam de ser entendidos de maneira vulgar. A densidade vem de que os próprios conceitos marxistas não são facilmente acessíveis, mas sem eles a confusão e o risco de mal entendidos aumenta enormemente.

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Re: A sociedade do espectáculo

Mensagem  Esquerdolas em Ter Mar 22, 2011 2:26 pm

É sempre recomendável ler os textos da revista Internacional Situacionista. Isso basta para desfazer a ideia de que os situacionistas seriam uma espécie de estilo-de-vidistas, ou de proponentes de cultura alternativa ou de experiências de sociedade dentro desta. É absurdo achar-se que eles valorizavam particularmente as revoltas estudantis e menosprezavam ou estavam para além das posições do comunsimo de conselhos, em muitos aspectos. Antes da crítica situacionista à revolução russa, há a dos comunistas de conselhos, e a deles pouco mais avança em relação a essa, nalguns aspectos até regride, aceitando por exemplo a tese dos socialismo ou barbárie, sobre a questão da divisão entre os que dão ordens e os que executam ordens como nova definição de classe. Aí Marx e os conselhistas estavam mais avançados.

Pelo poder dos Conselhos de Trabalhadores

Conselho para a continuação das ocupações





Em dez dias, não somente centenas de fábricas foram ocupadas pelos trabalhadores e uma greve geral selvagem interrompeu quase totalmente a atividades do país, mas também diversos edifícios pertencentes ao Estado foram ocupados por comitês de ação que se apropriaram da gestão. Em presença dessa situação, que em nenhum caso pode permanecer, posto que está na alternativa de extender-se ou desaparecer (regressão ou negociação massacradora), se varrem todas as velhas idéias, se confirmam todas as hipóteses radicais sobre a volta do movimento revolucionário proletário. O fato de que todo o movimente ter sido desencadeado, há cinco meses, por meia dúzia de revolucionários do grupo "Enragés" revela melhor que tudo como as condições objetivas já existiam. A partir de então, o exemplo francês ressoou além das fronteiras e fez ressurgir o internacionalismo, indissociável das revoluções de nosso século. Hoje, a luta fundamental se trava entre, por um lado, a massa dos trabalhadores - que não tem diretamente a palavra - e, por outro, as burocracias políticas e sindicais de esquerda que controla - ainda que só seja a partir de 14% dos sindicatos da população ativa - as portas das fábricas e o direito de negociar em nome dos ocupantes. Essas burocracias não são organizações operárias tornadas menos e traidoras, mas um mecanismo de integração na sociedade capitalista. Na crise atual, constituem a principal proteção do capitalismo vacilante.

O gaulismo pode tratar, fundamentalmente com o P.C.-C.G.T. (mesmo indiretamente) sobre a desmobilização dos trabalhadores, para a troca de vantagens econômicas: se reprimirão então as correntes radicais. O poder pode passar "à esquerda", que fará a mesma política, não obstante a partir de uma posição mais vantajosa. também se pode intentar a repressão pela força.

Em fim, os trabalhadores podem levar o gato à água, falando por si mesmos e tomando consciência das reivindicações que está no nível do radicalismo das formas de luta que já puseram em prática. Tal processo conduzirá à formação de Conselhos de trabalhadores que decidem democraticamente na base, se federem por meio de delegados revogáveis em qualquer momento e se convertam no único poder deliberante e executivo de todo os país.

Em que medida a prolongação da situação atual contêm esta perspectiva? Talvez em alguns dias, a obrigação de voltar a por em marcha alguns setores da economia sob o controle dos trabalhadores pode estabelecer as bases deste novo poder que tende a transbordar os sindicatos e partidos existentes. Será preciso por em marcha os trens e as gráficas pela necessidade da luta dos trabalhadores. Será preciso talvez que a moeda seja substituída por bonus que comprometam o surgimento de novas autoridades. Em tal processo prático pode surgir a consciência de classe que se apodera da história e que realiza pela ação dos trabalhadores a dominação de todos os aspectos de sua própria vida.



Paris, 22 de maio de 1968.



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Re: A sociedade do espectáculo

Mensagem  mceleiro em Ter Mar 22, 2011 3:51 pm

Esquerdolas, concordo com tudo o que escreves, simplesmente são as mesmas cousas ditas de jeitos diferentes.

E são muito interessantes as ligações que deixas.

Concordo especialmente com isto:


O sistema não apresenta coisa nenhuma, a sociedade capitalista manifesta-se duma dada maneira devido à sua estrutura, analisada por Marx. A análise dos situacionistas é uma extensão dessa análise marxista. Para entender a Sociedade do Espectáculo é preciso entender Marx e Lukacs. Só assim os conceitos que lá estão expostos perdem o mistério e deixam de ser entendidos de maneira vulgar. A densidade vem de que os próprios conceitos marxistas não são facilmente acessíveis, mas sem eles a confusão e o risco de mal entendidos aumenta enormemente.

Pode parecer contraditório com o que disse antes (O situacionismo não é «uma teoria» ao estilo dos marxistas ou anarquistas), por isso vou matizar:

- O situacionismo é uma extensão do marxismo, e não só, também das teorias anarquistas, partindo do contexto anterior à 1ª Internacional, fazendo uma análise critica histórica do marxismo e todas as suas ramificações e teorias paralelas desde aquela e até desde antes (veja-se o conceito Potlach, por exemplo). Essa abordagem das teorias políticas, económicas e sociais com visão dinâmica, é dizer, histórica, sempre contextualizada nas circunstâncias externas e internas tem muito a ver com a concepção marxista da história. Não rompe com ela, simplesmente a amplia, evitando qualquer ortodoxia. Por isso tem tanta importância para eles Lukács, um pensador desprezado e até «herético» entre correntes marxistas como o leninismo, o troskismo, o maoísmo, e especialmente entre os «eurocomunistas».

- A diferença do marxismo dominante, o situacionismo rechaça frontalmente a ideia de partido de classe como única ação revolucionária, embora num momento determinado puder ser um aliado válido. A ruptura com a sociedade espetacular é claramente interclassista. E as estratégias são também dinâmicas, sempre desde muitas frentes, que começam no individual, mas sendo necessária a organização e cooperação de diversos indivíduos.

- O situacionismo aborda questões que não existiam na altura em que Marx (e outros) fizeram as suas análises e formalizaram as suas teorias, e que frequentemente os seguidores das correntes de pensamento derivadas, por «purismo», não tratam. Estas são as que pessoalmente mais me interessam, pois é falso que no marxismo já esteja tudo dito. E prova disso é a sociedade capitalista (e cada vez mais espetacular) na que vivemos, que o marxismo clássico não consegue abalar.

Para deixar mais referências, recomendo os monográficos do RIZOMA.NET. O Rizoma.net foi um importante site brasileiro que abrigou rico acervo de artigos sobre ativismo, cibercultura e intervenção urbana. Um site muito situacionista, que chegou a ser um dos mais visitados da rede, e hoje desaparecido por finamento do seu promotor e administrador. Nesta ligação estão em PDF (para exibir on-line ou baixar) os principais conteúdos daquele mítico site organizados como livros temáticos.

http://virgulaimagem.redezero.org/rizoma-net/

O titulado «Potlach» pode ser útil como introdução ao pensamento e conceitos da Internacional Situacionista para quem não saiba muito da questão.
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Re: A sociedade do espectáculo

Mensagem  mceleiro em Ter Mar 22, 2011 3:57 pm

E para não aborrecer à malta com tanta teoria, um vídeo dum grupo situacionista:



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Re: A sociedade do espectáculo

Mensagem  Esquerdolas em Ter Mar 22, 2011 6:26 pm

Em Portugal os Mão Morta tentam transpor para música uma certa influência da IS mas não fico muito convencido. O disco onde mais explicitamente tentam fazer isso é o Nesta latrina há muito o ar se tornou irrespirável, que é, senão me engano, uma frase do Vaneigem. Eu prefiro outras canções deles. Mas já que o tema agora é este vou apresentar uma das "situacionistas":




doutro álbum:

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Re: A sociedade do espectáculo

Mensagem  Esquerdolas em Ter Mar 22, 2011 6:50 pm




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