Wikileaks Brasil - Transparência institucional

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Wikileaks Brasil - Transparência institucional

Mensagem  Pedro Bravo em Dom Dez 26, 2010 2:55 pm

Acho que não houve mais feliz acontecimento para a democracia que a aparição do Wikileaks. A procura da transparência, o controle e a participação públicos têm de ser o imperativo supremo. Já Platão situava aos guardiães e governantes de sua República em habitações comuns para se vigiarem mutuamente.

Lembro as seguintes críticas ao fenômeno:

1) os que aludem a sua zona de sombra (financiamento, interesses ocultos?, etc.), incluindo deficiências no proceder (parcialidade, arbitrariedade, etc.).
2) os que nos descobrem que não supõe nada novo, nada que não saiba “todo o mundo”: insubstancialidade.
3) os que nos lembram que o secreto (que soem ajuntar à confidencialidade) é consubstancial à diplomacia e mesmo à política (negociações; eleições, etc.): irresponsabilidade.
4) os que alertam do perigo do totalitarismo “democrático”, mesmo “comunista”.

Aguardo ilustrar e analisar tais “críticas”. Enquanto isso, colo a ligação duma nova estrela do céu que vem:

http://wikileaksbrasil.org/

Naturalmente, haverá que entender "institucional" em sentido largo.


O que não suporte a luz não merece existir.

WikileaksBrasil. Transparência institucional.
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Re: Wikileaks Brasil - Transparência institucional

Mensagem  Isabel em Dom Dez 26, 2010 3:01 pm

E o que achas da distribuição das notícias do Wikileaks através de jornais do "regime"...?

Há censura dentro da Wikileaks?
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Resposta

Mensagem  Pedro Bravo em Dom Dez 26, 2010 5:23 pm

Antes de mais, eu alegro-me de “a-aparição-de-Wikileaks”, não afirmo que Wikileaks seja a “comunhão dos santos”. Sua repercussão máxima (pelo de agora) tem lugar num contexto bem concreto: o apogeu dos “informes de qualificação”, quer dizer, o que Feijó chama “a crisi”.

As questões que levantas referem-se, num primeiro momento, ao apartado 1º. Tenho que sinalar que não tenho um conhecimento suficiente de Wikileaks,

(pode-se começar por aqui: http://www.agal-gz.org/planeta/front/?quiz=quiz&quiz_id=480&univers=11&step=5),


ainda que é desnecessário para o que quero sinalar. Entre as múltiples críticas, haverá que ver quais se resolvem recorrendo à condição de “organização”, às condições nada favoráveis de atuação, à necessidade duma estratégia, etc. Os erros ou defeitos individuais parecem-me peccata minuta.


Há censura dentro da Wikileaks?
Não tenho, nem ninguém, a capacidade de comprovar que não há censura, assim que não o afirmo. Como disse, algumas das críticas ao respeito poderão responder-se apelando à estratégia ou às condições do desempenho.

Naturalmente, penso que à organização –e a tudo– há que medi-la segundo os critérios que ela mesma proclame. Se se apresenta como adalid da transparência terá que ser transparente (todo o transparente que se possa).

Sim pode dar-se uma sorte de paradoxo, que está além da vontade individual, e que pela existência do secreto a luta contra o secreto tenha que recorrer ao secreto. Um paradoxo semelhante ao que se encontra quem luta contra a intolerância.

Enfim, de tudo isso deverá dar conta o responsável.

E o que achas da distribuição das notícias do Wikileaks através de jornais do "regime"...?
Pois uma estratégia como outra qualquer, que eu estimo acertada. Precisamente porque são os jornais do “regime”: são as vozes autorizadas pelo regime (como vai acusá-los de anti-sistema?) e se vem obrigadas a ser “profissionais” (a comparação, e a publicidade dos informes, poderiam danar seu prestígio, etc.).

Não estou muito ao tanto do assunto, mas penso que tais jornais só têm uma prioridade temporária. Os documentos (disponíveis) estão disponíveis para todo o mundo (que tenha tempo, ganas e formação).

Jogo Wikileaks
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Re: Wikileaks Brasil - Transparência institucional

Mensagem  Isabel em Seg Dez 27, 2010 2:44 am

Eu falo também desde a impressão pessoal e o pouco conhecimento sobre o caso. Chama a atenção que os jornais ousem publicar certas cousas, isso indica que o seu controle não é total, ou então que está tudo megalomaniacamente controlado...

Chama a atenção que, podendo mandar bombaços contra civis impunemente, não possam manter no cárcere o tal do sueco, se é que assim ficam mais tranquilos...

Também vi alguma informação a respeito de uma disputa entre eles, o que não sei se é informação favorável ou desfavorável (para eles).

Aqui uma entrevista com o loiro, legendada em 31 línguas... Exclamation



Um vídeo sobre o Wikileaks, em inglês com legendas em português (é a primeira parte de quatro):




Procurando vídeos sobre o caso achei um monte deles desautorizadores, misturando o tal Wikileaks com seitas religiosas e até extraterrestres... Ou seja, o de sempre. Há que discernir o que acontece fazendo peneira e depois usando muito a intuição...

E este fulano que esconde a sua voz?:

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RE: Wikileaks Brasil - Transparência institucional

Mensagem  Carmen em Seg Dez 27, 2010 2:46 pm

Saúdos a todos.
Meus parabéns pela agilidade da resposta ao encerramento dos foros do PGL.
Era leitora dos foros (uma voyeuse, como quem diz), e, dado que os debates se transladam para aqui, eu também me mudei.

Com respeito a WikiLeaks, penso que é difícil encontrar a verdade entre tantos interesses enfrentados. Como mínimo, os dos serviços diplomáticos dos EUA, os dos países cujo servilismo ante o império fica em evidência, os da estratégia militar americana e dos países ocidentais, os do criador e editor chefe de WikiLeaks e os da própria organização. Os de WikiLeaks são bem conhecidos: nos últimos anos a organização filtrou milheiros de documentos que denunciavam crimes de guerra e atentados contra os direitos humanos, especialmente em Guantánamo, no Afganistão e no Iraq. Estes contributos á defessa dos direitos humanos e à liberdade de expressão parecem suficientes para, em princípio, acreditar em WikiLeaks.
Se WikiLeaks acedeu aos documentos do Pentágono é possível que também possa aceder (a questão é se tem vontade de o fazer) aos dos engenheiros financeiros, especuladores e grandes bancos que levaram o mundo à crise atual . Por enquanto, esta pode ser outra boa razão para apoiar o WikiLeaks.


Última edição por Carmen González em Seg Dez 27, 2010 7:06 pm, editado 1 vez(es)
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Re: Wikileaks Brasil - Transparência institucional

Mensagem  Isabel em Seg Dez 27, 2010 3:27 pm

Bem-vinda, Carmen! É magnífico ver mais pessoal feminino por aqui. I love you

Eu entendi que o WikiLeaks não investiga, só recolhe as informações que lhe chegam, as peneira e depois as difunde. Ou seja, eles obtêm as informações dos informadores que voluntariamente as achegam. Depois apagam qualquer ligação, marca ou pegada dos informadores, de maneira que ficam anónimos. Desse jeito animam às pessoas a denunciar os abusos.

A ideia é ótima. Mas parece que o caso do sueco está a servir também para outras cousas, por exemplo, decidir a saída definitiva das tropas usamericanas do Iraque...
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RE: WikiLeaks

Mensagem  Carmen em Ter Dez 28, 2010 11:02 am

Obrigada, Isabel, também eu gosto de ver mulheres nos foros.

Eu também não sei muito do WikiLeaks. No grupo há periodistas, informáticos, matemáticos e hackers, como era o próprio Assange quando sendo adolescente conseguiu entrar no sistema informático do Pentágono. Nos últimos casos parece que a filtração se produziu desde dentro.

Se calhar é mais meritório, ou mais épico, o assalto desde fora, mas se WikiLeaks trabalha com consciência com o material que lhe acheguem, os resultados não deveriam ser piores. O que surpreende um pouco é a falta de documentos relacionados com delitos económicos. Publicaram relatórios sobre a irresponsável gestão do maior banco islandês que afinal levaram para o cárcere algum dos seus diretivos e Assange assegurou que as próximas filtrações serão sobre um grande banco americano, mas de momento o peso deste tipo de revelações no total dos documentos filtrados é quase irrelevante. Penso que pedir mais a WikiLeaks também não é muito justo. Haverá que estar atentos ao seu funcionamento e as diferenças internas que parecem existir na organização e ver que é que sucede nos próximos meses.






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Um exemplo das críticas nº 2: Miguel A. Murado

Mensagem  Pedro Bravo em Ter Dez 28, 2010 3:00 pm

Vou analisar um artigo de Miguel A. Murado em La Voz de Galicia (24/10/10).
Esta é a ligação em "tradução" para "galego": http://www.lavozdegalicia.es/mundo/2010/10/24/0003_8803946.htm?idioma=galego
Fundamentalmente se enquadra no segundo tipo de críticas que enumerei no primeiro comentário (as que desvalorizam o interesse jornalístico e a importância política de Wikileaks).

ANÁLISE
Agora sabemos máis, iso é todo
O material de Wikileaks debe ser tratado como o que é, datos non información, e esquecer a mensaxe mesiánico de Assange

Miguel A. Murado 24/10/2010


No 2007, catro mercenarios da empresa Blackwater que escoltaban un convoi do Departamento de Estados norteamericano abriron fogo na praza Nisur de Bagdad contra o que tomaron por unha multitude hostil. Aquel masacre fíxose soado por indiscriminada e polo número de vítimas civís: dezasete.

Con todo, se un vai aos papeis filtrados onte por Wikileaks e busca este incidente atoparase con que só aparecen rexistrados nove mortos, ademais doutros erros.

Os fallos son do militar norteamericano que elaborou o informe. Wikileaks non fai senón reproducir esa equivocación de xeito mecánico, porque o que nos ofrece son datos, non información. É só un exemplo de por que o material de Wikileaks debe ser tratado como o que é e non como o que non é, sen quitarlle nin esaxerar a súa importancia.

O que nos proporciona Wikileaks non é a verdade, como un tanto mesiánicamente proclama o seu creador, Julian Assange, senón unha fiestra aberta á burocracia da guerra, o que non é pouca cousa, pero non é exactamente o mesmo.

Resultado dunha pauta

Neses papeis vemos soamente o que os soldados norteamericanos consideraron necesario deixar por escrito e o xeito na que eles o viron. E ese é o seu interese: que reflicten un modo de percibir a realidade e un modo de actuar. Iso é o máis interesante destas filtracións: que nos mostran que os incidentes que xa coñeciamos non eran casos illados senón o resultado dunha pauta.

Podemos ver como non é certo que se fixo nada por impedir a tortura nin que se tomaron medidas para impedir a morte innecesaria de civís. O refinamiento das técnicas de comunicación lograra dar a impresión a algunhas persoas de que as democracias xa non cometían crimes de guerra máis que por erro. Os papeis de Wikileaks deixan claro que isto non é así. Non é unha sorpresa, pero si unha constatación.

¿Pero terá consecuencias esa constatación? Assange sempre expuxo o seu traballo como un activismo, non como unha forma de xornalismo, e nese sentido deu cunha fórmula máxica. A combinación de segredos revelados, Internet e idealismo fan que as súas filtracións reverberen en todo o planeta cada vez que se producen. Pero ao mesmo tempo tamén foi descubrindo que a simple exposición das mentiras non significa o triunfo da verdade.

Hai que recordar que as súas filtracións anteriores, moito máis escandalosas e concretas, perdéronse no debate sobre a ética de revelar os nomes dos implicados. Nada fai pensar que esta nova filtración vaia ter máis consecuencias e crelo supón talvez ignorar o xeito en como se constrúe a opinión pública e a dificultade de que esta inflúa nos Gobernos. Agora sabemos máis sobre Iraq, e talvez iso sexa todo.

Tal é o artigo. Não retirei nem assinalei as múltiplas gralhas do tradutor (o que quer dizer que o original está redigido em castelhano). Comentarei o título e o subtítulo ao final. Desconheço se o autor voltou a tocar o tema.


Artigo de Miguel A. Murado em LA VOZ
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Cauções

Mensagem  Pedro Bravo em Qua Dez 29, 2010 6:21 am

0.
1. Consideramos pertinente a análise desse artigo porque representa a leitura dominante do fenômeno Wikileaks e reflete os valores ou a cultura política que pretendem determinar a interpretação universal dos factos: quer dizer, a construção da realidade (e a moral) comum.

2. A análise pretende-se imanente, quer dizer, parte das formulações do autor, sem apelar a dados ou considerações externas.

3. Não se trata de uma defesa de Wikileaks ou de seu “criador”, Julian Assange. A excessiva personificação da representação política é um fenômeno a estudar, não uma chave interpretativa. Que a atenção se dirija, quase instintivamente, ao “dedo” (passado de J. Assange, escuro modus operandi, etc.) e não à “lua” (a certificação do carácter criminal de nossas democracias defensoras dos direitos humanos, a corrupção à que conduz inevitavelmente a opacidade política, etc.) é uma mostra dessa “cultura política” que procura a justificação do presente estado de coisas e a desqualificação de qualquer voz que o ponha em questão apelando aos “valores” uma e outra vez proclamados. (O desvelamento da verdade, seica, arruína-se a si mesmo quando pretende desvelar o plácido sono da maioria).

Um exemplo nosso com a mesma disjuntiva. Quando um professor (substituto) denunciou formalmente que o departamento de sua matéria não cumpria a Lei que obrigava, inter alia, a dar aulas em galego, a “opinião pública” diretamente envolta (seus “superiores”, muitos “companheiros” e também muitos alunos, do seu e de liceus próximos) preferia falar da “raridade” do “indivíduo” no seu vestir, no seu falar, no seu dar aulas, etc. É mais melhor que atender a uma denúncia pública objetiva (que nos afeta a todos) o linchamento pessoal de aquele cuja coragem e razão desvela a covardia e aborregamento própios.

4. O artigo acompanhava a outras informações sobre os papeis de Wikileaks, entre elas uma apresentação de Julian Assange (na que, por sinal, eu não aprecio o tono “messiânico” a que se refere o autor do artigo). http://www.lavozdegalicia.es/mundo/2010/10/24/0003_8804167.htm?idioma=galego
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Re: Wikileaks Brasil - Transparência institucional

Mensagem  Isabel em Qua Dez 29, 2010 7:42 am

Pois é. Já tenho observado esse comportamento mesmo em pessoas que se julgam críticas.

Os comentários sobre a vida pessoal do Assange, firmados pela denúncia e acosso policial, são cousas difíceis de tirar da cabeça e da boca das pessoas. Por algum motivo, esses "argumentos" fazem efeito por cima da evidência do que a Wikileaks amostra.

A suspeita é semeada e brota como a erva no campo. É peganhenta, pois já nada pode tirá-la daí. Foi método usado com as mulheres durante muitos séculos, para evitar que se comportassem como melhor lhes parecesse. Ou seja, está comprovado que funciona.

Mas, isso nos induz a desbotar qualquer dúvida a respeito do fenómeno Wikileaks?

http://ocastendo.blogs.sapo.pt/1088507.html

Eu, igual que o autor desse blogue, não consigo entender como é possível que essa informação chegue às suas mãos... Talvez as dúvidas não sejam sobre a Wikileaks, mas sobre aqueles/as que fornecem as informações à Wikileaks...
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Mensagem  Pedro Bravo em Qua Dez 29, 2010 5:56 pm

O terceiro video (que não posso voltar a ver) é um claro exemplo de propaganda difamatória. Muita declamação para dizer nada. Que é o que haveria que fazer, segundo essa voz de além-túmulo? Mais parece um exercício de demagogia num curso da Schole of the Americas. Serviria de exemplo para as críticas do primeiro tipo.

Mas, isso nos induz a desbotar qualquer dúvida a respeito do fenómeno Wikileaks?

http://ocastendo.blogs.sapo.pt/1088507.html

Eu, igual que o autor desse blogue, não consigo entender como é possível que essa informação chegue às suas mãos... Talvez as dúvidas não sejam sobre a Wikileaks, mas sobre aqueles/as que fornecem as informações à Wikileaks...

Evidentemente. O importante é o sentido dessa dúvida: trata-se de rejeitar com isso o FIM reconhecido por Wikileaks, e assim acalmar a consciência, ou de aplicar esse mesmo princípio incondicionalmente?

Vamos à dúvida concreta.

Eu, igual que o autor desse blogue, não consigo entender como é possível que essa informação chegue às suas mãos

No texto não vi que se falara disso. O mais relacionado poderia ser o início:

Como escreveu Carlos Gonçalves, «O que se pode dizer da Wikileaks é que nasceu próxima de círculos do imperialismo, como a Freedom House [!!],

Também diz:

Os factos revelados pela Wikileaks não são propriamente os mais actuais e sensíveis sobre a actividade criminosa do imperialismo.

Não é dizer muito, acho.

O último parágrafo refere-se aos representantes das críticas do terceiro tipo:

8. Confesso que, por tudo isto e muito mais, ando divertidissimo a ler e a ouvir os «especialistas» de ocasião, bem como alguns jornalistas. E ando fascinado em particular com a veia censória e securitária de alguns (ex) radicalistas pequeno-burgueses de fachada socialista que ainda «ontem» defendiam o oposto. É a vida!...


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Re: Wikileaks Brasil - Transparência institucional

Mensagem  Pedro Bravo em Qua Dez 29, 2010 7:59 pm

1. Os três primeiros parágrafos (aqui divididos doutro modo) conformam a primeira parte, uma introdução muito pedagógica, na que se “revela” que Wikileaks filtra dados “sem filtrar”, não informação. Algum desentendido poderia ler que por de manifesto que alguém mente é reproduzir erros. Começa o artigo com a lembrança dum “soado massacre”.

1. O facto informativo


[1.1] No 2007, catro mercenarios da empresa Blackwater que escoltaban un convoi do Departamento de Estados norteamericano abriron fogo na praza Nisur de Bagdad contra o que tomaron por unha multitude hostil. [1.2] Aquel masacre fíxose soado por indiscriminada e polo número de vítimas civís: dezasete.

[1.0] Apenas alguns apontamentos a um parágrafo que deve de ser exemplo de “informação” para o articulista.
[1.1] Primeiro lembrar, para contextualizar, que esse mesmo ano, como nos anteriores e posteriores (pois se nos limitamos ao passado podemos falar de decênios e séculos), houve muitos massacres made in USA de todo tipo conhecidos por todos.
Já sobre este caso: seguro que “tomaram” com absoluta correção. Quem duvidará de que era uma “multidão”, e de que era “hostil”? Um tropel de gigantes satisfaria as duas condições.

[1.2] Suponho que os insurgentes (activistas) não seriam tão parvos como para reunir-se em massa vociferante ao carão da estrada pela que passava um comboio do Departamento de Estado devidamente escoltado por gente de provada desenvoltura. Assim que mínimo a totalidade dos presentes seriam cidadãos normais e correntes. Pelo que não seria um massacre “indiscriminado”, como poderia ser se atacassem aos insurgentes escondidos entre a multidão. “Tirar a todo o que se mova”, a todo o que cheire, é discriminado e indiscriminado ao mesmo tempo.
Além disso: houve outro tipo de “vítimas” que as “civis”, outros cadáveres que os dos inocentes? Não é mais direto e mais informativo dizer “dezessete iraquianos/inocentes assassinados”?

Em definitiva: uma informação que se fez torticeira, rotineira, irrelevante. (Vemo-lo todos os dias na Palestina.) O massacre, por muito “soado” que fosse outrora, não é significativo em si mesmo. Para que vem a atualidade? Por que se lembra? O que fazer com esse pedaço de informação?


2. Que bem aproveitados os apontamentos do Master.

[1.2.1] Con todo, se un vai aos papeis filtrados onte por Wikileaks e busca este incidente atoparase con que só aparecen rexistrados nove mortos, ademais doutros erros. [1.2.2] Os fallos son do militar norteamericano que elaborou o informe. Wikileaks non fai senón reproducir esa equivocación de xeito mecánico, porque o que nos ofrece son datos, non información.

[1.2.1.] Muito diligente esse “qualquer um” (mágoa que não possa mostrar essa diligência em assuntos muito mais próximos e muito menos comprometedores da segurança universal. E ainda muita mais mágoa que não o ache de menos). Entre os milhares de papeis filtrados o dia anterior o “sabueso” jornalista já encontrou um (entre outros, podemos supor) com vários “erros”. Chamar de “erro” a que no informe conste “nove” mortos, e não dezessete (vítimas), sem mais dados e análises, é um pouco precipitado.

Em qualquer caso, chama de “erro” a respeito da informação transmitida pelos meios, que neste caso seria (mais fiel a) a realidade. O documento militar (não sei se único, realmente) contém um número de mortos inferior ao publicamente assumido. Será possível que haja um documento militar no que conste um número de mortos superior ao publicamente reconhecido? Julgaria o articulista dum jeito tão mecânico que se trata de um novo erro do redator? Esse “incidente” com esse “dado” não figura em mais documento para-oficial do que esse? O redator do informe estava no lugar dos factos, ou recebeu algum informe prévio?

Talvez para encontrar “erros” nos outros o caminho mais curto seja a linha recta, mas surpreende o contraste entre o contraste dessa desembaraçada debelação duns "papeis" com a sinuosa aceitação da “realidade” e o contraste entre o poder desse “super-dado”, situar no seu lugar a Wikileaks –e, de passagem, à Justiça, filha da Verdade-, e a irrelevância política dos milhares de “dados” fornecidos, e de inferências que deles se derivam: entre elas, a certeza de que “as democracias” cometem crimes de guerra tão sistemática como impunemente, como veremos.

[1.2.2] Após formular a trivial contradição, não se demora a solução do enigma. Os “erros” devem-se ao confeccionador do informe (se esse “erro” se deve a uma “tendência” constatável noutros informes do mesmo “militar norte-americano”, por exemplo, não merece qualquer atenção talvez por sua análise requerer mais do que um dia).

Mas isto, um “dado” cuja relevância está por estabelecer-se (por exemplo assim: Bom, quem não tem um erro?; ou assim: se se tem um erro numa operação aparentemente tão simples –contar cadáveres- a respeito dum assunto passado-, o que se passará na planificação de ações futuras muito mais complexas!), é ementado para qualificar negativamente (como sugerindo que Wikileaks é responsável do erro que possa suscitar num leitor não tão qualificado como o articulista, uma dessas “pessoas” às que alude depois) o que na forma e no fundo é uma virtude: que “não-faz-senão / reproduzir / essa equivocação / de jeito mecânico”.

Esquece aqui que antes de reproduzir (“copiar e colar”) há um trabalho de comprobação da validez dos documentos (a validez: que procedam de quem dizem que procedem, não a veracidade ou exatidão: que são a revelação-da-Realidade); em realidade não reproduze “essa equivocação” –também dizemos que o não ser é de alguma maneira...- senão toda uma série de documentos (informes, cables, vídeos) que incluirão “dados certos” (ou “verdades”) e “erros” (ou mentiras). O “jeito mecânico” está aqui mais do que justificado. Penso que é o “grau 0” da objetividade intentar não alterar nada, incluindo a ordem ou seqüência dos documentos.

A primeira lectio é que Wikileaks apenas oferece dados, não informação. Esta distinção dados/informação, tão própria dum manual de jornalismo, fica à interpretação do leitor. Não é o mesmo um dado solto que um dado ante um modo de ver as coisas. A diferença é relativa e contextual (como, aliás, a noção de verdade, que só tem sentido como “verdade numas condições dadas” ou a respeito dumas expectativas. Uma mesma frase pode ser uma verdade ou uma trivialidade segundo o contexto). A parelha dados-informação lembra outras de velho raizame: “matéria e forma”, “experiências e demonstrações”, “intuições e conceito”, “factos e argumentos”, etc. Todos esses termos são correlativos (não se dão sem o outro) e sensíveis ao contexto –sobretudo histórico: o que agora é um argumento depois poderá ser considerado um facto. As leis de Kepler merecem esse nome ante os dados das observações planetárias, mas, para Newton, eles próprias são um facto que há que explicar a partir duma Lei de rango superior. Voltaremos a este exemplo que por pretender ser esclarecedor pode ser considerado pedante.

Também não é claro se a dualidade dados/informação se corresponde ou prepara a dualidade ulterior informação/conhecimento (e para além: conhecimento/saber). O autor poderia fazê-lo, mas não ousa por nome ao seguinte chanço. É curioso que após afirmar que o material de Wikileaks não é mais do que um feixe de dados, e não informação, conclua que por eles só sabemos mais... (ainda que ele marca o mais).

Na realidade, um “dado” sem mais é aquilo sobre o que não há, não pode haver, discussão. (Por isso Wittgenstein afirmava que a comunicação humana exige partilhar com o outro determinados juízos –positivos- sobre a realidade; á Arendt sinalava que o desprezo dos “factos históricos” –a verdade factual- é mostra clara de totalitarismo. “A própria liberdade de opinião depende que a informação factual seja assegurada e que os fatos sobre os quais ela se assenta não sejam questionados” (Rosângela Chaves, “VERDADE, POLÍTICA E MÍDIA: uma leitura da obra de Hannah Arendt”, http://www.grupodemocracia.com/artigos/LIvro%203/PDFS/0105.pdf).

De um dado se pode tirar uma inferência, que será informativa até sua possível conversão em dado se é assumida aproblematicamente por todos, ou os mais, ou os mais importantes... Mesmo uma generalização se pode considerar um “dado”, como vimos com Newton, e como não pode ser doutro modo se tem de ser possível o avanço do conhecimento.

Mas a pretensão do autor é muito mais simples: seguindo a Aristóteles, distingue-se a matéria indeterminada (ou, mais aristotélico, potencial), esse “material” (já podemos imaginar ao editor cominando ao jornalista: “A ver, que material trais?”), massa amorfa de dados, bits, diferenças, espasmos, que precisa duma “forma” que lhe confira significado, sentido, relevância. Essa “in-formação” (outro mal maltratado aristotelismo) que, naturalmente, tem que advir desde o alto (ou fora). (E pelos vistos não se poderia reproduzir mecanicamente...).

3. As Grandes Verdades de LA VOZ


[1.3.1] É só un exemplo de por que o material de Wikileaks debe ser tratado como o que é e non como o que non é, [1.3.2] sen quitarlle nin esaxerar a súa importancia.

[1.3.1] Todo o anterior é “só um exemplo” (um dado) cujo marco interpretativo –que vai apresentar na segunda parte- deve orientar aos que duvidam sobre a “importância” do “material” de Wikileaks. O autor, na escola da VOZ, formula sua pretensão do modo mais neutro, irenista e genérico possível (“há que tratá-lo como o que é, não como o que não é”, “sem subir nem descer”), mas é claro que o sentido desta homilética é ilustrar-arrefriar aos entusiastas e desqualificar (“mecânico e messiânico”) ao promotor.

Para Aristóteles (e antes para Parmênides) a verdade consistia em dizer que o que é, é, e o que não é, não é (se bem aquele concede certo ser ao não ser). O falso amigo (Platão) é o que parecendo amigo, não o é. (Do bom amigo, os homens exigem mais de que o seja não o parecendo.) Será Wikileaks uma aparência enganosa, num mundo de "impressões e reverberos", que se apresenta a todo o mundo como o que não é? Algo do que todo o mundo se sente com direito a julgar quase com intensidade inversamente proporcional ao seu questionamento do statu quo (criminal, como se verá), talvez porque, para começar, é muito mais doado que com os Governos e Corporações? Com efeito, Assange, permanentemente escrutado em todos os foros, só tem seu prestígio, a credibilidade que possa levantar nos cidadãos.

[1.3.2] Grande verdade que não há que exagerar ou tirar importância a... à importância que realmente tenham as coisas. Cada coisa tem a importância que tem (desde a perspectiva desde que se a considere). Que bela função a do jornalista: determinar a importância dos eventos sem ter que dar conta dos critérios dessa determinação. No mesmo jornal lera um pequeno titular que falava das “matérias importantes” do curriculo. Devem de ter um Master em Importancialogia.
[b]
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Re: Wikileaks Brasil - Transparência institucional

Mensagem  Isabel em Qui Dez 30, 2010 4:27 am

Pedro Bravo escreveu:

Vamos à dúvida concreta.

Eu, igual que o autor desse blogue, não consigo entender como é possível que essa informação chegue às suas mãos

No texto não vi que se falara disso.


Pois se calhar é que o sonhei, mas à margem desse fulano, a minha dúvida persiste.

A última notícia que li é esta:

http://www.diarioliberdade.org/index.php?option=com_content&view=article&id=10370:segredos-do-imperialismo-as-revelacoes-mais-recentes-do-wikileaks&catid=235:comunicacom&Itemid=156

Bom, não sei se merece a pena carregar todas as energias na solução de um problema insolúvel com os dados de que dispomos, mas o certo é que umas vezes parece uma cousa e outras, outra. Depende de quem o conta? Sim, claro, mas não só...

A maneira em que essa informação chega às suas mãos é determinante, pois pode aí estar a censura ou a "filtração" conveniente. Demonizar uma pessoa serve também para criar um referente, ter um cabeça de turco (que expressão terrível...!).

Em qualquer caso, se o J. Assange e os outros estavam fora de controle, agora começam a estar controlados. As forças vivas do sistema atacam-nos como as máquinas-sentinelas da Matrix e parece que já começam a chupar em proveito próprio. Aí é que se torna difícil saber o que acontece, se tudo é difuso e não se conhecem as fontes, a origem dos acontecimentos, então podemos passar-nos horas e dias e meses, sem chegar a conhecimento algum sobre o tema...

Não estou muito atenta à análise do artigo que deixaste, Pedro, desculpa...
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Isabel

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"O Globo" e o MST

Mensagem  Pedro Bravo em Qui Dez 30, 2010 6:09 am

Isabel, bem fizeste, a análise é cansativa de mais. Li agora a informação a que remetes no DiárioLiberdade. Interessou-me o assunto brasileiro (todos os outros eram mais ou menos conhecidos).

Fui ao Wikileaks Brasil (http://wikileaksbrasil.org/) e desde aqui, MST, o jornalismo em rede – e afinal, documentos são documentos (http://wikileaksbrasil.org/?p=779#more-779), fui até a página do MST: 'O Globo' distorce Wikileaks para atacar Reforma Agrária (http://www.mst.org.br/A-palavra-espiao-invenção-do-Globo-afirma-professor), que inclui este interessante artigo: Wikileaks, a imprensa, o MST e eu - Por Clifford Andrew Welch - Prof. Dr. Ajunto do Curso de História da Universidade Federal de São Paulo). Interessante, entre outras coisas, pelo crível e incríveL modus operandi dos estadunidenses (que nao estudunidenses, que seria mais difícil de pronunciar). Voltarei a ele noutro momento.

Também é interessante esta "entrevista", HUMOR: Entrevista com o “espião” no Incra, no site da Rede de Comunicadores pela Reforma Agrária (http://www.reformaagraria.blog.br/2010/12/19/entrevista-exclusiva-com-espiao-do-mst-no-incra/).

Agora tenho que sair. Wikileaks BrasilWikileaks Brasil - NotíciaMST responde a O GloboEntrevista com espião
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Pedro Bravo

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O terceiro link

Mensagem  Pedro Bravo em Qui Dez 30, 2010 6:22 am

A terceira ligação:

MST responde a O Globo
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Re: Wikileaks Brasil - Transparência institucional

Mensagem  Isabel em Qui Dez 30, 2010 8:08 am

Muito interessante...

Há várias cousas a ter em conta, segundo esses artigos:

1) Há uns 2.000 documentos publicados mas a gente não os lê com atenção, não se fazem uma ideia. Claro, não podemos estar a tudo.

2) Portanto, faz-se necessária a figura do jornalista: é preciso que alguém tome nota do publicado e traduza para a gente, ou seja, conte o que vê que pode ter relação com a sua comunidade. Os reintegracionistas galegos carecemos (ainda?) desses analistas.

3) As análises devem fazer-se com muito cuidado e sensibilidade, as analistas têm que saber ler. Não vale apanhar os conceitos ou impressões assim à ligeira. Os documentos têm um contexto e podem estar a informar bem ou mal, muito ou pouco, de maneira clara ou confusa...

4) No caso concreto do MST, é O Globo quem colabora contra. Mas Lula ofereceu asilo político ao Assange... Não se põem de acordo ou é que O Globo vai por livre?


Também revi o documentário sueco mais uma vez, e ir ao sítio da Wikileaks e ver a versão completa do vídeo do atentado em Bagdad. Foi bom porque diminuíram um pouco as minhas reticências iniciais, acho que entendo melhor o que pode ter acontecido e está a acontecer com o movimento-página-organização-Assange.

Hoje é possível, com conteúdo, ser conhecido em todo o mundo... Não sei se tal cousa é desejável para um movimento reivindicativo, não há mais que ver pelo que está passando o loiro esse. Mas... é para pensar. pirat
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Emblemas sobre espiões e Razão de Estado

Mensagem  Pedro Bravo em Qui Dez 30, 2010 6:37 pm

Emblemas do espião e a Razão de Estado. Uma breve resenha sobre um livro interessante: Diego Navarro Bonilla, Los archivos del espionaje: Información, razón de estado y servicios de inteligencia en la monarquía hispánica, Salamanca, 2004, Caja Duero.
http://www.archivodelafrontera.com/BIBLIO-eurasia-001.htm#subir


1555 Dunton? Spy





Cesare Ripa, Della più che novissima Iconología overo descrittione dell’Imagini universali cavate
dall’antichita
[…], Padova, Donato Pasquardi, 1630.
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Pedro Bravo

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Re: Wikileaks Brasil - Transparência institucional

Mensagem  Carmen em Sex Dez 31, 2010 1:59 am

Acho que tens razão, Pedro, se temos dados, temos informação, não é necessário que ninguém venha do alto dar-nos explicações. Se algum jornalista quer interpretar, que pelo menos procure os dados e não espere a que Wikileaks lhos traga. Depois de tudo, se a imprensa estiver ao que devia, com certeza não estaríamos como estamos, dependendo de que alguém possa e queira piratear a informação que os poderes nos furtam. Nada novo, por outro lado, como confirmam os emblemas que puseste. É conatural com eles, com qualquer poder. De termos nós, os cidadãos, a informação, nós seríamos os poderosos.

Também compartilho as reticências que diz ter Isabel. É necessária muita fé para acreditar cegamente em que Wikileaks e os jornais divulgadores tenham os nossos mesmos interesses quando são eles os donos da informação e nós temos que aguardar a que no-la distribuam aos bocadinhos, sem pressas, ao ritmo que eles marquem .

Penso que de momento não temos muitas mais opções que confiar um pouco e esperar. Como diz Michael Moore, muito orgulhoso de já ter sido citado duas vezes nos papeis, todavia só conhecemos 1% do material.





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Re: Wikileaks Brasil - Transparência institucional

Mensagem  Pedro Bravo em Sab Jan 01, 2011 6:27 am

Escreve Carmen:

É necessária muita fé para acreditar cegamente em que Wikileaks e os jornais divulgadores tenham os nossos mesmos interesses quando são eles os donos da informação e nós temos que aguardar a que no-la distribuam aos bocadinhos, sem pressas, ao ritmo que eles marquem.

Mais que fé, é necessária muita cegueira... Pode haver aspectos ou situações em que se requeira fé, nos que a razão não seja suficiente para determinar a acção. Talvez a raiz última do pensar seja um ato de fé. Mas, pelo geral, a razão, a capacidade analítica, é suficiente para saber em que mundo estamos. É claro que os "dados" e a "informação" são, quase inevitavelmente nalguma medida, parciais e envesgados. Mas, parafraseando a Kant, os dados-informações sem conceito são cegos. É muito fácil para a razão descobrir essa parcialidade e enviesamento. (Precisamente, as "revelações" de Wikileaks são relevantes porque impedem qualquer tipo de escapatória aos indolentes ou cúmplices secretos, como veremos na análise do artigo de A. Murado). Além disso, tanto os jornais como Wikileaks apresentam uns princípios a partir dos quais podemos julgar seu desempenho. Não se trata, pois, de aguardar a que novas revelações nos mostrem, duma vez por todas, "a verdade", mas constatar que este conhecimento concreto que estamos tendo confirma certos paradigmas interpretativos e destrói, definitivamente, outros. Os aquiescentes com a barbárie tem de saber que sua posição só se baseia na defesa de seu privilégio ou no mero submetimento ao poder.

Como diz Michael Moore, muito orgulhoso de já ter sido citado duas vezes nos papeis,

O único modo de neutralizar o poder que confere a assimetria da informação é, precisamente, fazendo público o que um quer e faz. Se um age segundo critérios racionais perde o medo a ser controlado (voltarei sobre isto). Se os investidores (grandes, medianos e pequenos) estão tão orgulhosos do seu sucesso económico, por que se negam a que se conheçam suas operações? Só resta a necessidade do secreto (o privilégio) como explicação de seu "sucesso".






Última edição por Pedro Bravo em Sab Jan 01, 2011 5:28 pm, editado 1 vez(es)
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Re: Wikileaks Brasil - Transparência institucional

Mensagem  Isabel em Sab Jan 01, 2011 12:24 pm

Pedro Bravo escreveu:O único modo de neutralizar o poder que confere a assimetria da informação é, precisamente, fazendo público o que um quer e faz. Se um age segundo critérios racionais perde o medo a ser controlado (voltarei sobre isto). Se os investidores (grandes, medianos e pequenos) estão tão orgulhosos do seu sucesso económico, por que se negam a que se conheçam suas operações? Só resta a necessidade do secreto (o privilégio) como explicação de seu "sucesso".


Carmen, Pedro,

O motivo do orgulho pode ser uma razão inconfessável. Porque há razões e motivos mais e menos honrados, e todos perfeitamente lógicos e alguns até esperáveis, mas infames.

Precisamente, ao que parece é na lógica, razões fundamentais e motivos de ação das macrocorporações económicas onde reside essa moderna história universal da infâmia.

Por isso as reticências que todos sentimos, acho, quando algo diferente chega pelos mesmos meios que todo o outro. Contudo, a Wikileaks está na rede, e isso indica uma certa garantia de honradez.

Outra cousa, e por vir a conto, precisamente no reintegracionismo sabemos que temos de ter a toda a gente bem informada do que fazemos. Todos os atores sociais devem conhecer-nos e saber quem somos, o que queremos e que cousas organizamos. É peça chave, por exemplo, no comportamento da Academia. Desse jeito, se fizerem qualquer asneira contra nós, ficarão em evidência e não haverá segredos.
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Re: Wikileaks Brasil - Transparência institucional

Mensagem  Carmen em Seg Jan 03, 2011 10:30 am

Pedro,
Precisamente porque, como dizes, o sucesso está muitas vezes baseado no secreto, não podemos esperar que renunciem voluntariamente a ele. Só o conhecimento por todos dos delitos feitos ao seu amparo pode impedir a sua repetição.

A crítica que se pode fazer a WikiLealks e aos jornais que publicam os documentos é que não estão a contribuir à transparência todo o que poderiam. Se são certas as razões que aduzem (proteção própria ou de terceiras pessoas), ou se estão a tirar vantagens da sua posição de controlo da informação é o que de momento ponho em questão.





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Re: Wikileaks Brasil - Transparência institucional

Mensagem  Pedro Bravo em Seg Jan 03, 2011 11:28 am

Escreve Carmen:
que não estão a contribuir à transparência todo o que poderiam.
A Verdade é filha do Tempo, dizem. Não me importo muito na possibilidade de que alguém esteja a fazer um uso estratégico dessa informação, pois (1) só tem a chave para subministrar dados, não para interpretar o que eles significam, e qualquer vesgo exigiria uma explicação; e (2) todos vão ir na mesma direcção: muitas decisões relevantes se adotam sem o devido procedimento, entre elas as que assinalam o que deve ser comunicado à população. Isto é o que mais me interessa: como se digire esse material e se integra no consabido bandulho do sentido comum.
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Análise do artigo de A. Murado em LA VOZ sobre Wikileaks. Segunda parte.

Mensagem  Pedro Bravo em Seg Jan 03, 2011 11:58 am

Mais bem para tirar-mo de cima, continuo a leitura do artigo de A. Murado.

2. Lectio universalis
[Só] certifica que havia uma pauta trás os massacres já conhecidos.

[2.1.1.] O que nos proporciona Wikileaks non é a verdade, como un tanto mesiánicamente proclama o seu creador, Julian Assange, [2.1.2.] senón unha fiestra aberta á burocracia da guerra, [2.1.3] o que non é pouca cousa, pero non é exactamente o mesmo.

[2.1.1.] O exemplo concreto pretendeu mostrar que Wikileaks reproduz dados “indiscriminadamente”, não transmite informação. Por isso, considerado no seu conjunto, o material de Wikileaks não é “a verdade” que nos faz livres... Mas, na realidade, Wikileaks não se preocupa por averiguar se esses dados são congruentes com "a realidade” construída pelos meios de comunicação, porque se centra numa questão prévia, e portanto mais fundamental: corroborar que esses documentos são realmente documentos oficiais (aqueles pagados diretamente pelos cidadãos). É isto o que não se conhecia como se conhece graças a Wikileaks: Wikileaks não só subministra "material", mas material sumamente comprometido e a garantia de que é o que parece. Essa é sua pretensão declarada.
(Sobre a verdade, I)
Além disso, não está claro o que é “o messiânico”: a suposta pretensão de Wikileaks de subministrar “a verdade”, ou qualquer pretensão de mostrar “a verdade”, ou a noção mesma de “verdade”? Um qualificativo tão contundente (protegido pelo peculiar advérbio: um tanto...) exige quando menos alguma citação ou referência mais concreta que o justifique. Doutro modo, haverá que pensar que se trata de desqualificar, não só ao Assange, mas a pretensão mesma de mostrar a verdade, e a noção de verdade mesma. (Cuidai-vos dos falsos profetas...).

[2.1.2.] Só prévio estabelecimento de que Wikileaks não “proporciona... a verdade” se pode reconhecer que oferece simplesmente “uma janela aberta à burocracia da guerra”. A “burocracia”, já se sabe... É difícil não lembrar o letreiro que figurava (há tempo que não viajo nesse meio) nas janelas dos comboios: “é perigoso assomar-se ao exterior”.

Entre tanto muro qualquer um pode supor que uma “janela” é bem pouca coisa, e que poucos, se alguns, poderão fugir por ela. Mas todos deverão concordar em que é mostra suficiente de que há outro mundo lá fora cuja rainha é a luz e a plena liberdade de movimentos (quer dizer, de questionamentos).

“Burocracia da guerra” tende a “localizar” (reduzir) o assunto –só atinge a um aspecto das coisas-, e também a “normalizá-lo”: os inevitáveis burocratas... O anonimato e despersonalização que entranha a “burocracia” a faz alvo predileto das críticas dos que assumem e vivem de sua existência: os cúmplices necessários. Burocracia quer dizer administração, e a administração da guerra é um aspecto da administração da realidade. Outro é a administração da informação, uma de cujas funções básicas é determinar a “importância” do que se passa em função de supervivência do domínio do princípio burocrático, que não afeta apenas à guerra, mas também a informação (aliás, se com toda guerra o primeiro que se sacrifica é a verdade ad extra, podemos supor que lá onde a verdade se ressente estamos perante um conflito soterrado).

[2.1.3.] Disso que proporciona Wikileaks diz que “não é pouca coisa”, mas também não podemos exagerar, pois não é “exatamente o mesmo” que “a verdade”. Como se passa sempre na linguagem, a ordem de fatores sim altera o produto. O artigo seria completamente outro se dissesse que esses materiais não são “o mundo visto por Deus”, mais sim o des-cobrimento (a-letheia) pleno da violência e a mentira que mamamos todos os dias.

Certamente o véu não impedia (permitia, favorecia?) adivinhar as formas superficiais da figura para quem aplicasse a olhada geométrica que todos levamos incorporada, mas o desvendamento faz impossível que qualquer um dos que antes se negavam a seguir a lógica das coisas afirme que não vem de ver o rosto da violência e a mentira. Já que a têm que comer outros por ele [...], que pelo menos veja a merda da sua indolência (condescendência, complacência?).
(A verdade, II)
Se antes exagerava a relevância daquela diferença de “dados” (do que inferia a existência de “erros”), agora diminui a relevância da achega de Wikileaks porque “não é exatamente o mesmo” do que “a verdade”. Mas a “verdade” que um possa descobrir depende das perguntas que um próprio se faça. Para quem não se questiona nada é claro que tudo é irrelevante.

Primeiro se tacha de messiânica a pretensão de Assange, quando na realidade só subministraria dados; esses dados se tornam, magicamente, no facto de ver a burocracia em funcionamento (e com isso a diferença entre o que se diz e o que se faz), do que se diz que "não é exatamente o mesmo" do que a verdade. Semelha que só se recorre a uma noção enfática (mas nunca explícita) da “verdade” para que todas as pretensões concretas sejam sistematicamente desqualificadas (para fazer mudar nossa atitude e nossa conduta) por qualquer "nimiedad". Assim qualquer mantém seu manto ético (claro que há princípios, e bem que se aplicam sobre os mais fracos) e desacredita todas as propostas concretas que mudem demasiado o estabelecido.

Resultado dunha pauta
Saltamos este destaque mal posto.

[2.2.1] Neses papeis vemos soamente o que os soldados norteamericanos consideraron necesario deixar por escrito e o xeito na que eles o viron. [2.2.2] E ese é o seu interese: que reflicten un modo de percibir a realidade e un modo de actuar. [2.2.3] Iso é o máis interesante destas filtracións: que nos mostran que os incidentes que xa coñeciamos non eran casos illados senón o resultado dunha pauta.

[2.2.0] Mas bem semelha que quem tem um conceito “messiânico” de “a verdade” é o autor do artigo, por considerar que “a verdade” se pode revelar plenamente nuns “papeis” (uns “papeis” num contexto determinado já são outra coisa...).

[2.2.1] Só assim tem sentido que vejamos “somente” a confissão de parte... duns indivíduos.

Repare-se no inocente “vemos”, cuja excessiva simplicidade –até os cangarejos vem-, cuja excessiva clareza e imediatez, pois, pode velar sua extraordinária relevância. Todo o mundo “vê” (entende imediatamente): faze falta um esforço para dizer que não vê o que não se quer ver. Por outra banda, agora “só” vemos o que antes não se podia ver, ou não se queria inferir, ou aceitar (olhos que não vem...). E por aqueloutra, vemos o que para um adulto é o mais relevante da guerra: o modo em que se pensa (ou opera por dentro) aquilo que querem que vejamos do que fazem. Pois o que se faz depende do que se pensa (e do poder real que se tenha), e não ao invés.

[2.2.2] Mais uma vez, só enquadrado nesse “somente” reconhece o articulista o “interesse” (cognoscitivo, pragmático, emancipatório? jornalístico, crematístico, político?) das filtrações. Todos esses “informes sobre incidentes” “refletem um modo de perceber a realidade e um modo de actuar”: vemos que o “interesse” reside em que toda uma multidão de informes se deixa reduzir a uma “regra”, desdobrada em discurso e conduta (aspectos que se supõem plenamente coerentes).

Bom, em realidade só vemos o primeiro dos aspecto, não o segundo: não sabemos o que eles viram. De facto, outros “soldados americanos” viram e disseram que viram muitas mais coisas. E ainda que praticamente ninguém ponha em questão a verdade de seus relatos, são regularmente neutralizados como casos particulares. Se não são quem de viver normalmente após essas experiências é porque, sem dúvida, têm alguma carência emocional –no caso de não ter sentido a cínica acusação de bussinização da própria desgraça-, ou a experiência foi particularmente (inusitadamente) infernal.

[2.2.3] Assim que esse “somente” é “o mais interessante” dos vazamentos: os incidentes isolados “que já conhecíamos” respondem a um discurso e uma conduta sistemáticos.

Sabido é o velho duplo roque sofístico: desqualificar algo ou por “inusitado” ou por “consabido” (outro roque característico é criticar um discurso ora por leviano ou por cansativo). Quantas vezes ouvimos a velha coarctada da falta de probas? As suspeitas sobre o concurso eólico, os planos urbanísticos, o caso Couso, as agências de qualificação, etc., etc., mais que confirmadas pelo sentido geral da experiência e a razão, são sistematicamente desestimadas por “falta de dados” (e as qualificações da agências, são “dados” ou “informação”? A escolha de “dados”, faz-se desde outro “dado”?). Mas quando se dispõe das provas, dos “dados” (e que melhor prova e “dado” que a confissão de parte?), são deslegitimados como irrelevantes: isso já o sabe todo o mundo. Portanto, que tudo siga igual.

[2.3.1] Podemos ver como non é certo que se fixo nada por impedir a tortura nin que se tomaron medidas para impedir a morte innecesaria de civís. [2.3.2] O refinamiento das técnicas de comunicación lograra dar a impresión a algunhas persoas de que as democracias xa non cometían crimes de guerra máis que por erro. [2.3.3] Os papeis de Wikileaks deixan claro que isto non é así. Non é unha sorpresa, pero si unha constatación.

[2.3.1.] “Podemos VER”, diz de novo o articulista, que não se procurou “impedir” [!!] a tortura ou a morte desnecessária de civis. Quer dizer: que se torturou e massacrou “à vontade”. Podemos ver a tortura e a morte. E, de passagem, constatar que as autoridades mentiram, e mentem, sistematicamente quando asseguravam que procurariam atinar mais com as bombas... Também essa é uma “pauta” “interessante”.

[2.3.2] Mas qual o valor desta revelação, ou mais bem deste “tocar e palpar” a verdade (a verdade: que as autoridades –não só políticas, também as reconhecidas institucionalmente como meios de informação- mentem sistematicamente)? Simplesmente desmentir aos ingênuos, “algumas pessoas” que tinham a “impressão”, logro do “refinamento das técnicas de comunicação [!]”, de que “as democracias” (se é linguagem-emic, desvela que há mais do uma “impressão”; se é etic, vê-se a ideologia desde a qual o dado se torna informação...) “já” não cometiam “crimes de guerra mais que por erro” ("sin querer queriendo", como o que diz).

[2.3.2.1] Que chame “comunicação” a conseguir dar uma “impressão”, a deformar a realidade, é muito surpreendente num “jornalista”. (“Impressão” que é mais bem um fantasma, que não se deixa formular em qualquer discurso racional, cf. infra).
[2.3.2.2.] Que fale de “refinamento”, quando a contrária dessa impressão não é surpresa para a maioria, além de indicar uma ignorância considerável num licenciado em História, delata a típica tecnolatria do jornalista. Eu não vejo nada significativamente novo desde Aristóteles. Em realidade, trata-se do procedimento mais velho do mundo: a repetição universal da mensagem salvífica. Extra ecclesiam nulla salus, é a tono de fundo. E como, além disso, disque “o medo é livre” [??], esses parvos teriam escusa suficiente. São vítimas de seus piedosos desejos e de seu legítimo direito à tranqüilidade de consciência...

Portanto, para nada “refinamento das técnicas de comunicação”, mas propaganda maciça e reconstrução permanente da coerência do relato sistêmico, para fazer de lavar algo a consciência àqueles cuja adesão se consegue lembrando-lhes a friagem que vai lá fora. (Com efeito, também podemos ver como funciona a burocracia da informação nos artigos dum jornalista de LA VOZ).

[2.3.2.3.] Mas têm escusa? Penso que é contraditório afirmar que “as democracias” já só cometem crimes por erro. Se as democracias de antes eram democracias como as democracias de agora, e a democracia é coisa boa que não faze coisas más, e a tortura e o assassínio de inocentes são coisas más, então não podem ser as de agora as que só cometam crimes por erro, mas as de antes. Pois entre antes e agora houve um desenvolvimento técnico que possibilita que não se cometam erros (pelo menos como antes). Se há alguma diferença (“já”: antes/agora) não pode consistir em que agora só se cometem erros técnicos. O normal, e do que se alardeia, e o que acalma as consciências, é que agora se cometem menos erros.

Pois detenhamo-nos nas possibilidades. Se agora as democracias já só cometem crimes por erro quer dizer que (1) antes não cometiam crime algum, e seria surpreendente o avanço tecnológico supor o nascimento ou proliferação do erro; (2) ou que a democracia de antes cometia erros a sabendas e por erro e que agora só por erro, com o que se suporia quando menos um avanço na democracia e então haveria que dar conta de baixo que critérios e se seguem a estar vigentes e operantes; (3) ou que a democracia de antes cometia erros a sabendas e por erro, e que agora os médios de comunicação permitiriam dissimular aquilo e também, por que não (se isto foi o que num princípio se fez, minimizar a taxa de erros; na realidade, alardear da precisão cirúrgica da informação e das operações)?, também os erros. É bem doado é vestir o massacre com o verbete do erro. Wikileaks mostrou que os arcanos do poder são o que parecem: tudo vale pelo negócio.

“isto não é assim” = as democracias cometem crimes de guerra sistematicamente.

[2.3.3] Os papeis de Wikileaks “deixam claro” não só que é falso que “as democracias” simplesmente “não cometam já crimes de guerra mais que por erro” (pois cometer crimes “por erro” é inevitável; reconhecer, apesar de que num começo se legitimava a guerra apelando à sua assepsia cirúrgica, a inevitabilidade do erro serve agora para legitimar ante as consciências os crimes de guerra), mas, mais “exatamente”, que “as democracias” “cometem crimes de guerra” sistematicamente, a sabendas e querendas porque podendas.

(Sobre a verdade, III)

O senhor achava excessiva a pretensão messiânica à verdade (poder apresentá-la toda junta duma vez, algo assim como a parusia verificacionista): uns “dados” não são “informação”/”a verdade”? Para isso pretendia “refutar” essa pretensão aludindo a um “erro” notório e fácil de comprovar: a diferença na quantidade de mortos consignada. Toma isto como um “erro” quando na realidade pode significar muitas coisas; por exemplo, a mera indiferença ou a tendência sistemática a reduzir a informação sobre os males causados (quantas instâncias há que erram sempre pro domo sua...? Por acaso não se compensam esses “erros” à baixa com os “erros” à alta no caso de informar dos danos causados aos combatentes reconhecidos?). O autor esquece que esses dados se dão num contexto de crenças e expectativas prévias e mostram, segundo ele próprio reconhece, que determinada crença sobre o funcionamento do sistema é falsa de toda falsidade. Esses “dados” não conduzem à Visio Dei, mas sim refutam de raiz não só o conteúdo da crença (“isto não é assim”) mais também os fundamentos cognoscitivos que a fazem aceitável ou meramente possível (“é claro”). Agora, nem o mais estúpido pode negar a R E A L I D A D E sobre o comportamento (e portanto a natureza: operari sequitur esse) de “as democracias (administradas)”.

Quatro são as “constatações”

O que significa isso, para o analista da Voz? “Não é uma surpresa, mas sim uma constatação”.

Novamente o roque desvalorizador: não é “uma surpresa”, só uma “constatação” do sabido ou suspeitado ou temido. Antes o “já conhecido” por todos eram os “incidentes” “já conhecidos” (porque outros muitos são novos, ou versões substancialmente diferentes das notícias publicitadas), agora o que não é surpresa, o que qualquer quando menos jornalista podia suspeitar, é que esses crimes respondiam a uma única e a mesma pauta que modulava o pensamento, a conduta... e a comunicação: pois aquele “(não) se fez” é outro geode de significações. “Não é certo” (então alguém supus ou informou ou proclamou que sim era certo: olhem meus olhos...) “que se fez nada por impedir” a tortura e a assassínio, quer dizer: (1) fez-se justo tudo o contrário: tudo (começando pelos cartos públicos, i.e., dos cidadãos) “se fez” por promover o que fosse mister para que as Corporações fizessem negócio ; (2) as autoridades mentiram; (3) os que comunicaram essa “informação” (os jornalistas encarregados de administrar a informação...) são cúmplices (mínimo “parvos úteis”) dessa mentira; (4) os mais dos cidadãos mal mudaram o voto e seu comportamento (os cidadãos que apoiavam às autoridades, ou à Nação, e que mesmo simpatizavam com seu modus operandi).

Temos aqui, não uma, mas quatro “pautas”: a violência das democracias, a mentira dos governos, a propaganda dos média e a irresponsabilidade (culpável) dos cidadãos. Quatro pautas mais do que sistemáticas: sistêmicas.
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RE: Análise do artigo de A. Murado em LA VOZ sobre Wikileaks. Segunda parte.

Mensagem  Carmen em Sex Jan 07, 2011 4:30 am

Disse Pedro:
"Temos aqui, não uma, mas quatro “pautas”: a violência das democracias, a mentira dos governos, a propaganda dos média e a irresponsabilidade (culpável) dos cidadãos. Quatro pautas mais do que sistemáticas: sistêmicas."

É difícil dizer mais em tão poucas palavras. Só acrescentaria que as duas primeiras pautas subsistiriam com dificuldade se mudasse uma das outras duas.

As três primeiras respondem ao mesmo fim: proteger os poderes reais. Para que uns poucos possam manter uma situação de privilégio sobre a maioria necessitam a mentira e a violência. Não se entende doutra maneira que milhões de cidadãos aceitem mansamente que os poderes políticos não cumpram com a sua parte do contrato (proteger o bem-estar de todos).

Enquanto, a imprensa cala ou desinforma. Se alguma vez foi o quarto poder e informava a cidadania dos abusos dos outros três, a concentração dos média numas poucas mãos e os subsídios fizeram deles reféns do poder económico e / ou do poder político.

Os cidadãos ficam assim desprotegidos. Mas, só são vítimas? Pois depende do que conheçam da situação. Se “não sabem”, são as vítimas necessárias para que a injustiça continue, mas é bem difícil entender tanta ignorância em tanta gente que nos demais aspetos da sua vida sabe muito bem o que faz. Até sob regímenes ditatoriais só “não sabe” quem não quer saber.

As atuações de WikiLeaks podem ser uma sacudidela aos média e às consciências cidadãs e , pela sua vez, os média e os cidadãos deveriam estar bem atentos aos movimentos de WikiLeaks. Ter tantíssima informação pode ser um risco para a sua independência.


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Análise do artigo de A. Murado em LA VOZ sobre Wikileaks. Terceira parte.

Mensagem  Pedro Bravo em Qui Jan 20, 2011 2:16 pm

Terceira parte da análise.

3
Desactivando ao activista
Activando
a inação

Que agora todo o mundo saiba que “as democracias” (entre outras muitíssimas coisas) cometem crimes contra a Humanidade dum jeito tão impune como sistemático simplesmente carrega ao cidadão com uma sabedoria que estorva quando há que instalar a super-televisão na diminuta salita de estar. Certifica-se então a inanidade dos direitos humanos (discurso ético oficial), do estado de direito (discurso jurídico oficial) e da cidadania democrática (discurso político oficial). Mais uma vez a eterna escolha: ou inane ou cúmplice. Enquanto isso, estes mudaram de hipócritas a cínicos, o único progresso moral que não causa problemas.

[3.1.1] ¿Pero terá consecuencias esa constatación? Assange sempre expuxo o seu traballo como un activismo, non como unha forma de xornalismo, [3.1.2] e nese sentido deu cunha fórmula máxica. A combinación de segredos revelados, Internet e idealismo fan que as súas filtracións reverberen en todo o planeta cada vez que se producen. [3.1.3] Pero ao mesmo tempo tamén foi descubrindo que a simple exposición das mentiras non significa o triunfo da verdade.

[3.1.1] Uma vez concedida certa relevância à informação subministrada por Wikileaks, se bem como simples resto do rebaixamento prévio (meros dados que precisam da mão do profissional), acomete a crítica política: a revelação da inanidade pratica dessa revelação. Esses dados, que corroboram aquela informação, não se tornam sabedoria...

Antes de mais, qualquer um faria umas perguntas prévias ao articulista:
1.- em que tipo de conseqüências está pensando (por exemplo: positivas, negativas)
2.- pensa que deveria tê-las, e de qual tipo, ou, como jornalista, pouco importam as conseqüências?
3.- as conseqüências devem ser imediatas? O autor é dos que, por exemplo, criticam a greve porque “não tem conseqüências” (pelo que não serviria para nada relevante)? De verdade pensa que a “opinião pública” (não a publicada) funciona a espasmos?

Duma informação sem conseqüências haveria que dizer que ou é uma falsa informação (uma verdade sem conseqüências é uma contradição nos termos) ou seus presuntos receptores não são tais, mas simples gado indiferente às preocupações dos homens.

A pergunta crítica, pois, deveria dirigir-se (interpelar) à opinião pública, ao sujeito político democrático. Mas é mais cômodo dirigi-la ao mensageiro. O próprio Assange se apresenta como um “activista” (mais um avatar da aristotélica energeia) não como um “jornalista de atualidades”. Supõe-se, então, que o “activista” quer “atuar”, mudar o mundo, enquanto o “jornalista” só quer informar (entreter, divertir), confirmar o mundo. O activista se dirige ao cidadão e o jornalista ao espectador-consumidor de imagens ou curiosidades. Como esta seria uma distinção problemática (de verdade os jornais não querem influir sobre a opinião e, portanto, sobre a conduta? E, em todo caso, não agir é uma escolha e um agir), pode-se estabelecer uma diferença de matiz nos objetivos (o activista quer uma influência imediata, o jornalista uma influência mediata?), ou nas condições de desempenho (o jornalista aceita as regras –e a falta de regras- vigentes, enquanto o activista não respeitaria as regras ou determinadas regras). Ou quer dizer que o “activista” tem uma ideologia (“messiânica”, e "idealista", seica) e uns objetivos que abafam a pureza de sua ação, enquanto o “jornalista” não tem ideologia e não anseia outra cousa que a “objetividade”? Mas se os objetivos dessa organização (uns de seus lemas é “abrimos governos”) são, precisamente, a transparência e o controle nos assuntos públicos, seguro que o “jornalista” (ou seu editor quando menos) gostou nalguma recepção de apresentar-se como “activista de verdade”. Mas não são os ciúmes e a inveja o que move ao articulista, como veremos.

Então a relevância das filtrações depende do cumprimento das supostas expectativas de um indivíduo? Não é um modo demasiado evidente de “escorrer o vulto”? Já antes desvalorizara sua relevância considerando-as meros dados que apenas confirmam o que já se sabia ou temia. Agora faz depender a valorização de seu sucesso das peripécias dum indivíduo. A análise, pelos vistos, consiste em tornar a informação num conto.

[3.1.2] Como “activista” teria encontrado uma “fórmula mágica” do jornalismo, pois a revelação justiceira de secretos “dos poderosos” (como há tempo falava Zapatero) na rede garante seu sucesso comunicativo ("reverberam"), mas não o sucesso político. Vendem-se jornais e com eles a oportunidade de queixar-se e manifestar sua indignação e superioridade moral e cívica, sem que por isso tenha que mudar nada. "Fórmula mágica" é sempre um meio, pelo que a verdade e o "idealismo" são, enquanto ingredientes dessa fórmula, meios de meios. Mas o "activista" (como bom energoumenon) nas faz acepção de pessoas e não distingue meio e fim: a sua acção é propriamente o fim (se quer responder ao seu conceito).

[3.1.3]
0. Confirma-se a concepção messiânica da verdade, que não só tem que manifestar-se plenamente –como vimos- mas também deve fulgurar e abrasá-lo tudo. “O Triunfo da Verdade” apenas se manifestaria no universal cair de joelhos. Ou, mais acorde com os tempos, no universal aposentar-se perante a pantalha da televerdade.

1.1 Evidentemente, já a “simples” exposição de algo requer certas condições mínimas para ser recebido. Se não há uma preocupação prévia pelos assuntos políticos, se a apatia –conjunta de cinismo e moralismo- se instalou na cidadania, se o princípio de responsabilidade (o princípio de causalidade aplicado aos assuntos humanos) e, portanto, de inteligibilidade e racionalidade foi sistematicamente postergado, qualquer revelação desembocará no deserto da indiferença.
1.2 Certamente, alguns quereriam manter o monopólio da “importancialidade” ou relevância, de modo que o caráter dessa informação (revelação relevante ou consabida nadinha) dependeria única e exclusivamente do tamanho das letras do titular, i.e., do carácter da exposição (à simples exposição se acrescentaria a simples interpretação, sobretudo numa sociedade troquelada pelo catolicismo).
1.3 De facto, "foi descobrindo" ele, o Assange, porque o articulista já sabia. E que sabia? Pois que não estava disposto a fazer sua parte do trabalho. As mentiras dos governos reverberam na rede a escala planetária: um mero epifenômeno para o jornalista experto.
1.4 [A verdadeira "fórmula mágica" têm-a os editores de médios como The Wall Street Journal, cujas receitas mais do que requentadas, têm consequências continentais, imediatas, inapeláveis e contínuas.

2. Também é interessante a mudança de aspecto: primeiro se refere às conseqüências, logo ao triunfo da verdade.
Que não assistamos à apoteose da Verdade, supõe que não há conseqüências? Realmente não houve conseqüências? E não só favoráveis aos desígnios de Wikileaks, mas também e sobre tudo em contra (boicote de empresas financeiras; novas medidas de segurança; sanha bárbara com Bradley Manning; ameaças de persecução, juízo, condena; estigmatização como terrorista...).

Que o articulista renuncie às conseqüências “negativas” (“não corrais que é pior”), para assim poder calar as conseqüências “positivas”, indica que prefere ou teme mais os efeitos desejados do que os indesejados. Os ciumes, como dissemos, nao têm cabida aqui.

3. Qual seria, pois, a lectio? Que melhor não actuar porque não se vai conseguir nada (pois não consegui-lo todo aqui e agora é para o articulista como não conseguir nada)? Assim é como se lavam a consciência os que não querem que as cousas mudem. Esta declaração da impotência da razão é o que há que combater sem piedade.

[3.2.1] Hai que recordar que as súas filtracións anteriores, moito máis escandalosas e concretas, perdéronse no debate sobre a ética de revelar os nomes dos implicados. [3.2.2] Nada fai pensar que esta nova filtración vaia ter máis consecuencias e crelo supón talvez ignorar o xeito en como se constrúe a opinión pública e a dificultade de que esta inflúa nos Gobernos. [3.2.3] Agora sabemos máis sobre Iraq, e talvez iso sexa todo.
[3.2.1] Historia, magistra vitae... A inanidade política dos vazamentos é suficientemente “justificada” pela experiência recente: filtrações “muito mais escandalosas e concretas” (todo tempo passado foi melhor, seica) “perderam-se” no deserto dos “debates éticos” (longe, pois, da “decisão política”) sobre a revelação “dos nomes dos implicados” (i.e., os que se jogam o pescoço de verdade).

Aceitando, para ir abreviando, a estilização das conseqüências (além de onisciente podemos supor que seu editor lhe empresta sua bola de cristal), ela delata que para o autor os “debates éticos” estão bem para as aulas de Ética nos Liceus, mas que na “vida real” são uma ninharia. Que o autor se faça eco duma questão parcial, dirigida ao questionamento de Wikileaks, quer dizer, que o autor participe da política mediático-governamental de dirigir os focos ao mensageiro (passado de Assange, delatores anônimos), quase faz esquecer (mas também vice-versa) que considera que a questão ética é se é bom o anonimato das fontes (já vemos o purismo dos que depois tragam com tudo) e não se podemos viver numa sociedade nas que os que ousam desvelar o que outros querem ocultar correm sérios riscos (eufemismo chama-se a figura) de perderem-se nos calabouços EUA ou diretamente no depósito de cadáveres.

Assim que a “ética”, que não vale nada, é usada pelos criminais e seus cúmplices para desprestigiar (eticamente e, portanto, politicamente) aos que puseram de manifesto a barbárie civilizada.

[3.2.2] Portanto, o mesmo destino aguarda às novas filtrações (ou menos, porque os homens se acostumam a tudo). Podemos estar gratos ao articulista por nos ter poupado uma parte desses já minguados “debates éticos”, seica a “Maria” dos bons jornalistas, para nos iluminar com a explicação da irrelevância política da verdade:

Que “nada faça pensar” que desta vez (e então já da outra e de qualquer outra futura) vá mudar qualquer coisa sim merece uma explicação (sim que faz pensar). Acreditar na força emancipadora da verdade “supón talvez ignorar o xeito en como se constrúe a opinión pública e a dificultade de que esta inflúa nos Gobernos.” Não explica a irrelevância, mas a crença ingênua (o wishful thinking) na relevância (da) política: deve-se à “ignorância”. Quem pense que o conhecimento pode mudar nossa conduta é um ignorante. (Haverá instâncias mais fortes, por exemplo, o interesse, que se supõe óbvio e transparente para cada quem.)

1) O modo em que “se constrói a opinião pública”. Haverá que matricular-se no Master da Voz para saber, em primeiro lugar, o que é a “opinião pública” (a velha doxa), para ver depois quem pode ser o sujeito dessa construção. Que o autor venha de dizer que o tal Assange encontrou a “fórmula mágica” quererá dizer que o autor quis dizer que nem existem nem magia nem fórmulas mágicas, mas só ilusão sem conseqüências.
2) A dificuldade de a opinião pública influir nos Governos. Que dizer duma frase tão genérica? Sem distinção de sentidos, não se pode responder que a opinião pública está configurada pelos governos (inquéritos oficiais para informar-se e propaganda de todo tipo para conformar “estados de ânimo” ante tudo)? Ou que há diferentes níveis de “opinião pública” (desde a editorial do Financial Times até foros como este), e que o governo só considera a opinião pública popular quando coincide (por indução) com os interesses das elites [caso controladores]? Não da por suposto que a “opinião pública” quer realmente influir no governo nesta questão, e o sentido em que quer fazê-lo? E qual seria esse sentido, mais liberdade e transparência ou mais “segurança” e controle assimétrico? Quer dizer que o Assange sim ganhou a opinião pública, mas que esta é impotente para “influir” no governo que ela mesma elege? Criticar isso seria sinal de ingênuo “idealismo” (face amável do totalitarismo “messiânico” da “verdade”)?

[3.2.3] A conclusão da homilia, sabiamente resumida no título (“Agora sabemos mais, isso é todo”: pois não sabemos só sobre o Iraque... também sobre “as democracias”; e o talvez é indício de dúvida e radicalidade que empece a sensata sabedoria que simplesmente sabe mais...), indica que aquilo cujo mero acrescentamento não conduz à sabedoria tem que ser qualquer coisa menos saber.



Comentaremos ainda o titular e cabeçalho.
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